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100 anos de teatro em Campina Grande: o efervescente Theatro Apollo

Erguido na antiga Rua Grande no auge do algodão, o Theatro Apollo foi o berço do teatro campinense. Brilhou nos anos 1920 e foi demolido em 1943.

Montagem antes e depois: à esquerda, o Theatro Apollo em foto de época; à direita, a Rua Maciel Pinheiro atual, movimentada pelo comércio.
A mesma rua, dois tempos: o Theatro Apollo nos anos 1930 (esq.) e a Rua Maciel Pinheiro hoje (dir.). Montagem CG em Foco: acervo histórico (esq.) e Wikimedia Commons, domínio público (dir.)
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No fim da primeira década do século XX, Campina Grande era uma pequena urbe de cerca de 10 mil habitantes e umas 35 ruas. O que a fez crescer não foi o acaso, mas o algodão. O ciclo do algodão começava a se agigantar, e a inauguração da estrada de ferro, em 1907, abriu caminho para que a fibra produzida no interior da Paraíba chegasse aos portos e, de lá, à América do Norte e à Europa. A cidade virou um poderoso entreposto comercial do Nordeste.

O trem que levava o algodão trazia, na volta, o luxo e as novidades das grandes praças. Entre elas, as companhias de teatro, a maior diversão da família brasileira no início do século. Foi nesse ambiente de dinheiro novo e apetite por cultura que, em 1910, um grupo de representantes da sociedade local se reuniu com uma ideia ambiciosa: construir um teatro à altura da cidade que nascia.

Foto de época da Rua Grande, atual Maciel Pinheiro, com o Theatro Apollo à esquerda e prédios neoclássicos ao lado.
O Theatro Apollo (à esquerda) na antiga Rua Grande, hoje Rua Maciel Pinheiro. Reprodução: acervo histórico

A rua que teve muitos nomes

O endereço do Apollo era a Rua Grande, uma das mais antigas da cidade. Ao longo do tempo, ela foi chamada de Rua da Feira, Rua das Gameleiras, Rua da Independência, Rua Uruguaiana e Praça Epitácio Pessoa, até fixar o nome atual, Maciel Pinheiro. A homenagem é a Luiz Ferreira Maciel Pinheiro (1839-1889), jornalista abolicionista e republicano, colega de Castro Alves e Tobias Barreto na Faculdade de Direito do Recife.

Era uma via de muitas vidas: comércio, feira, festas populares e os dois primeiros cinemas da cidade, o Apolo e o Fox, que dividiam a mesma rua e os mesmos ânimos políticos. O Theatro Apollo ficava vizinho ao antigo Mercado Novo, no coração de uma Campina Grande que fervilhava ao ritmo do algodão. Foi o mesmo dinheiro do algodão que, décadas depois, ergueria o conjunto Art Déco do centro, outra marca da riqueza que passava pelos trilhos.

O Theatro Apollo em três marcos
1907 A chegada do trem a estrada de ferro liga o algodão de Campina Grande aos portos
1912 Elenco próprio o Apollo passa a operar com corpo técnico e artistas locais
1936 A última cortina a casa encerra as atividades após 24 anos de história

Fonte: Registros históricos de Campina Grande

Quem construiu o Apollo

Reunidos em torno do projeto, Probo da Silva Câmara, Lino Fernandes de Azevedo, Adauto Belo e Antônio Câmara ergueram o Theatro Apollo. A casa passou a funcionar com corpo técnico e elenco próprios a partir de 1912, formado por jovens idealistas da burguesia campinense. Eles entrariam para a história como os precursores da arte de representar na cidade, os primeiros artistas de teatro de Campina Grande.

O time por trás do Theatro Apollo
Função Quem fazia
Fundadores Probo da Silva Câmara, Lino Fernandes de Azevedo, Adauto Belo e Antônio Câmara
Direção musical Maestro Adauto Belo
Dramaturgia e seleção de textos Lino Fernandes de Azevedo
Elenco pioneiro (1912) Raimundo Hazan, Carlos Piza, João Pinto, Geny Costa, Ederlina Fernandes, Zezé Pontes, Ermengarda Câmara, Iracema Câmara, Olindina Schuler, Maria Antonieta Colaço, Nilde Cunha, Cecy Silva e Brígida Santos

Fonte: Registros históricos de Campina Grande

Mais do que um prédio, o Apollo reunia um corpo técnico completo: cada função tinha um responsável de nome e sobrenome, do maestro ao dramaturgo, numa cidade que ainda engatinhava.

Detalhe da fachada do Theatro Apollo, com frontão, arcos na entrada e a estátua de Apolo no alto.
Detalhe da fachada: os arcos da entrada e, no alto, a estátua de louça do deus Apolo. Reprodução: acervo histórico

A fase áurea dos anos 1920

O Theatro Apollo viveu seu apogeu por toda a década de 1920. As montagens arrastavam a sociedade campinense para a casa de espetáculos, um prédio em estilo neoclássico que trazia, no alto da fachada, uma bela estátua em louça do deus grego Apolo, o padroeiro das artes que dava nome ao teatro. A seriedade e o zelo de quem fazia teatro na cidade garantiam o sucesso das promoções.

Cada espetáculo era preparado com rigor. O elenco era escolhido com cuidado, os cenários caprichados e o guarda-roupa estudado nos mínimos detalhes. A parte musical ficava a cargo do maestro Adauto Belo, enquanto o teatrólogo Lino Fernandes de Azevedo respondia pela maior parte dos textos encenados e pela seleção das obras dramáticas, de autores brasileiros e estrangeiros.

Embora tivesse elenco permanente, o Apollo também promovia a vinda de grandes companhias. Em 1921, recebeu a da célebre atriz Itália Fausta, um dos nomes centrais da modernização do teatro brasileiro. Em 1925, foi a vez da Companhia de Operetas de Vicente Celestino, um dos cantores mais populares do país na primeira metade do século XX. A passagem desses artistas por Campina Grande media o tamanho da ambição cultural da cidade.

A trajetória do Theatro Apollo
  1. 1907

    Chega o trem

    A inauguração da estrada de ferro conecta o algodão de Campina Grande aos portos e acelera a economia.

  2. 1910

    Nasce a ideia

    Representantes da sociedade local se reúnem para construir um teatro na Rua Grande, atual Maciel Pinheiro.

  3. 1912

    Elenco próprio

    O Apollo passa a operar com corpo técnico e artistas locais, os primeiros do teatro campinense.

  4. 1921

    Itália Fausta

    A companhia da célebre atriz brasileira se apresenta na casa.

  5. 1925

    Vicente Celestino

    A Companhia de Operetas de Vicente Celestino passa por Campina Grande.

  6. 1936

    A última cortina

    A comédia Queremos Água encerra a história do teatro, com casa lotada.

  7. 1943

    A demolição

    O prédio é derrubado na reforma urbana do prefeito Vergniaud Wanderley.

A última cortina, em 1936

O ano de 1936 marcou o fim do tradicional Theatro Apollo. O último espetáculo foi a comédia em dois atos “Queremos Água”, interpretada por Elias Araújo, Orlando Santos, Lourdes Melo, Eliezer Araújo, Herótides Xavier, Amenaíde Pimentel, Áurea Santiago, Nair Gusmão, Lourdes Andrade e Eulália França. A casa ficou superlotada em todas as apresentações, como se a cidade quisesse se despedir do teatro. O que faz rir também faz chorar: uma comédia marcou o grande final de uma casa que marcaria para sempre a história artística de Campina Grande.

A metamorfose da rua

Sete anos depois, em 1943, o Apollo foi demolido pelo prefeito Vergniaud Wanderley, no início da reforma urbana que modernizou o centro entre os anos 1930 e 1940. Foi o tempo em que a cidade abriu avenidas como a Floriano Peixoto e derrubou casarões inteiros em nome do progresso. A picareta que remodelou o centro apagou também o prédio onde nascera o teatro campinense.

A Rua Maciel Pinheiro hoje, movimentada por lojas, carros e pedestres, no centro de Campina Grande.
A Rua Maciel Pinheiro hoje: uma das vias comerciais mais movimentadas da cidade. Wikimedia Commons / domínio público

No lugar da casa de espetáculos e do antigo Mercado Novo, a Rua Maciel Pinheiro virou um corredor de lojas, calçadas cheias e trânsito intenso. Do teatro de louça e colunas, sobraram os nomes, as datas e a memória. Parte do centro histórico, porém, resistiu, e ainda guarda prédios preservados que dão a medida do que a cidade quase perdeu por inteiro.

Prédios históricos preservados no centro de Campina Grande à noite, entre eles a Biblioteca Municipal e a Associação Comercial.
O centro histórico preservado nas imediações, patrimônio que sobreviveu à remodelação. Claudia GFarias / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A vocação teatral, essa, não morreu com o Apollo. Décadas mais tarde, a cidade ganharia o Teatro Municipal Severino Cabral, inaugurado em 1963. Antigas casas de espetáculo também seguem no debate patrimonial, como o Cine Capitólio, hoje em transformação. O mesmo centro que perdeu o Apollo é hoje alvo de um plano de revitalização. Quem quiser seguir a trilha da memória pode conferir o nosso roteiro cultural de Campina Grande.

Contar essa história, um século depois, é reconhecer que a vocação cultural de Campina Grande não começou ontem. Antes dos grandes festivais e dos equipamentos modernos, houve um teatro de louça e colunas, um deus grego na fachada e um punhado de jovens que decidiram, no calor do algodão e do trem, que a cidade também merecia palco. Este especial reconstrói a memória e a imagem de época do Theatro Apollo a partir de registros históricos da cidade.

VerificadoApurado em registros históricos de Campina Grande e em pesquisa documental sobre o Theatro Apollo.

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