No fim da primeira década do século XX, Campina Grande era uma pequena urbe de cerca de 10 mil habitantes e umas 35 ruas. O que a fez crescer não foi o acaso, mas o algodão. O ciclo do algodão começava a se agigantar, e a inauguração da estrada de ferro, em 1907, abriu caminho para que a fibra produzida no interior da Paraíba chegasse aos portos e, de lá, à América do Norte e à Europa. A cidade virou um poderoso entreposto comercial do Nordeste.
O trem que levava o algodão trazia, na volta, o luxo e as novidades das grandes praças. Entre elas, as companhias de teatro, a maior diversão da família brasileira no início do século. Foi nesse ambiente de dinheiro novo e apetite por cultura que, em 1910, um grupo de representantes da sociedade local se reuniu com uma ideia ambiciosa: construir um teatro à altura da cidade que nascia.

A rua que teve muitos nomes
O endereço do Apollo era a Rua Grande, uma das mais antigas da cidade. Ao longo do tempo, ela foi chamada de Rua da Feira, Rua das Gameleiras, Rua da Independência, Rua Uruguaiana e Praça Epitácio Pessoa, até fixar o nome atual, Maciel Pinheiro. A homenagem é a Luiz Ferreira Maciel Pinheiro (1839-1889), jornalista abolicionista e republicano, colega de Castro Alves e Tobias Barreto na Faculdade de Direito do Recife.
Era uma via de muitas vidas: comércio, feira, festas populares e os dois primeiros cinemas da cidade, o Apolo e o Fox, que dividiam a mesma rua e os mesmos ânimos políticos. O Theatro Apollo ficava vizinho ao antigo Mercado Novo, no coração de uma Campina Grande que fervilhava ao ritmo do algodão. Foi o mesmo dinheiro do algodão que, décadas depois, ergueria o conjunto Art Déco do centro, outra marca da riqueza que passava pelos trilhos.
Fonte: Registros históricos de Campina Grande
Quem construiu o Apollo
Reunidos em torno do projeto, Probo da Silva Câmara, Lino Fernandes de Azevedo, Adauto Belo e Antônio Câmara ergueram o Theatro Apollo. A casa passou a funcionar com corpo técnico e elenco próprios a partir de 1912, formado por jovens idealistas da burguesia campinense. Eles entrariam para a história como os precursores da arte de representar na cidade, os primeiros artistas de teatro de Campina Grande.
| Função | Quem fazia |
|---|---|
| Fundadores | Probo da Silva Câmara, Lino Fernandes de Azevedo, Adauto Belo e Antônio Câmara |
| Direção musical | Maestro Adauto Belo |
| Dramaturgia e seleção de textos | Lino Fernandes de Azevedo |
| Elenco pioneiro (1912) | Raimundo Hazan, Carlos Piza, João Pinto, Geny Costa, Ederlina Fernandes, Zezé Pontes, Ermengarda Câmara, Iracema Câmara, Olindina Schuler, Maria Antonieta Colaço, Nilde Cunha, Cecy Silva e Brígida Santos |
Fonte: Registros históricos de Campina Grande
Mais do que um prédio, o Apollo reunia um corpo técnico completo: cada função tinha um responsável de nome e sobrenome, do maestro ao dramaturgo, numa cidade que ainda engatinhava.

A fase áurea dos anos 1920
O Theatro Apollo viveu seu apogeu por toda a década de 1920. As montagens arrastavam a sociedade campinense para a casa de espetáculos, um prédio em estilo neoclássico que trazia, no alto da fachada, uma bela estátua em louça do deus grego Apolo, o padroeiro das artes que dava nome ao teatro. A seriedade e o zelo de quem fazia teatro na cidade garantiam o sucesso das promoções.
Cada espetáculo era preparado com rigor. O elenco era escolhido com cuidado, os cenários caprichados e o guarda-roupa estudado nos mínimos detalhes. A parte musical ficava a cargo do maestro Adauto Belo, enquanto o teatrólogo Lino Fernandes de Azevedo respondia pela maior parte dos textos encenados e pela seleção das obras dramáticas, de autores brasileiros e estrangeiros.
Embora tivesse elenco permanente, o Apollo também promovia a vinda de grandes companhias. Em 1921, recebeu a da célebre atriz Itália Fausta, um dos nomes centrais da modernização do teatro brasileiro. Em 1925, foi a vez da Companhia de Operetas de Vicente Celestino, um dos cantores mais populares do país na primeira metade do século XX. A passagem desses artistas por Campina Grande media o tamanho da ambição cultural da cidade.
- 1907
Chega o trem
A inauguração da estrada de ferro conecta o algodão de Campina Grande aos portos e acelera a economia.
- 1910
Nasce a ideia
Representantes da sociedade local se reúnem para construir um teatro na Rua Grande, atual Maciel Pinheiro.
- 1912
Elenco próprio
O Apollo passa a operar com corpo técnico e artistas locais, os primeiros do teatro campinense.
- 1921
Itália Fausta
A companhia da célebre atriz brasileira se apresenta na casa.
- 1925
Vicente Celestino
A Companhia de Operetas de Vicente Celestino passa por Campina Grande.
- 1936
A última cortina
A comédia Queremos Água encerra a história do teatro, com casa lotada.
- 1943
A demolição
O prédio é derrubado na reforma urbana do prefeito Vergniaud Wanderley.
A última cortina, em 1936
O ano de 1936 marcou o fim do tradicional Theatro Apollo. O último espetáculo foi a comédia em dois atos “Queremos Água”, interpretada por Elias Araújo, Orlando Santos, Lourdes Melo, Eliezer Araújo, Herótides Xavier, Amenaíde Pimentel, Áurea Santiago, Nair Gusmão, Lourdes Andrade e Eulália França. A casa ficou superlotada em todas as apresentações, como se a cidade quisesse se despedir do teatro. O que faz rir também faz chorar: uma comédia marcou o grande final de uma casa que marcaria para sempre a história artística de Campina Grande.
A metamorfose da rua
Sete anos depois, em 1943, o Apollo foi demolido pelo prefeito Vergniaud Wanderley, no início da reforma urbana que modernizou o centro entre os anos 1930 e 1940. Foi o tempo em que a cidade abriu avenidas como a Floriano Peixoto e derrubou casarões inteiros em nome do progresso. A picareta que remodelou o centro apagou também o prédio onde nascera o teatro campinense.

No lugar da casa de espetáculos e do antigo Mercado Novo, a Rua Maciel Pinheiro virou um corredor de lojas, calçadas cheias e trânsito intenso. Do teatro de louça e colunas, sobraram os nomes, as datas e a memória. Parte do centro histórico, porém, resistiu, e ainda guarda prédios preservados que dão a medida do que a cidade quase perdeu por inteiro.

A vocação teatral, essa, não morreu com o Apollo. Décadas mais tarde, a cidade ganharia o Teatro Municipal Severino Cabral, inaugurado em 1963. Antigas casas de espetáculo também seguem no debate patrimonial, como o Cine Capitólio, hoje em transformação. O mesmo centro que perdeu o Apollo é hoje alvo de um plano de revitalização. Quem quiser seguir a trilha da memória pode conferir o nosso roteiro cultural de Campina Grande.
Contar essa história, um século depois, é reconhecer que a vocação cultural de Campina Grande não começou ontem. Antes dos grandes festivais e dos equipamentos modernos, houve um teatro de louça e colunas, um deus grego na fachada e um punhado de jovens que decidiram, no calor do algodão e do trem, que a cidade também merecia palco. Este especial reconstrói a memória e a imagem de época do Theatro Apollo a partir de registros históricos da cidade.
VerificadoApurado em registros históricos de Campina Grande e em pesquisa documental sobre o Theatro Apollo.
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