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Geraldino Duda, o desenhista que projetou o Teatro Severino Cabral aos 27 anos

Campinense nascido em 1935, começou como desenhista aos 15 anos e assinou o projeto do teatro antes de se formar engenheiro. Deixou cerca de 300 residências modernas na cidade.

Geraldino Duda sorrindo, de óculos, ao lado de um painel com o desenho do Teatro Municipal e os dizeres A Arquitetura de Duda.
Geraldino Duda ao lado do painel com o desenho do teatro que projetou aos 27 anos, em exposição sobre sua obra. Prefeitura de Campina Grande
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Quando recebeu a incumbência de desenhar um teatro para Campina Grande, em 1962, Geraldino Pereira Duda tinha 27 anos, trabalhava no setor de planejamento da Prefeitura e não havia concluído curso superior nenhum. O prédio que saiu daquela prancheta, o Teatro Municipal Severino Cabral, é hoje um dos edifícios mais reconhecíveis da cidade. Ele só se formaria em Engenharia Civil na década seguinte.

A trajetória de Geraldino Duda em números apurados
1935 nascimento em Campina Grande, no mês de março
27 anos ao projetar o teatro a encomenda chegou em 1962
~300 residências projetadas número citado em entrevista publicada pela UFCG

Fonte: Revista Arquitetura e Lugar (UFCG, 2023) e Docomomo Brasil

Do escritório de desenho à Prefeitura

O estudo assinado pelos pesquisadores Diego Diniz e Marjorie Garcia, publicado pela UFCG, registra que Duda começou a trabalhar aos nove anos e entrou aos 15 no ofício de desenhista, no escritório do arquiteto licenciado Josué Barbosa. Foi ali que teve contato com a prática que o acompanharia pela vida inteira, sem passar por uma escola de arquitetura.

Depois, integrou o Departamento de Planejamento e Urbanismo da Prefeitura de Campina Grande e, mais tarde, a Secretaria de Planejamento do município. É essa posição que explica como um profissional jovem recebeu a encomenda do teatro: a administração optou por resolver o projeto com a equipe técnica da casa, em vez de contratar um escritório de fora.

A
Arquiteto autodidata

Profissional que exerce a arquitetura sem formação acadêmica na área, aprendendo na prática do desenho e da obra. É como as fontes acadêmicas e a própria Prefeitura de Campina Grande descrevem Geraldino Duda, que só concluiu a graduação em Engenharia Civil anos depois de projetar o teatro.

Há uma divergência documental que não deve ser resolvida por dedução. O estudo da UFCG afirma que ele se graduou em Engenharia Civil na Escola Politécnica de Campina Grande, então ligada à instituição que viria a ser a UFCG. Já a nota oficial de pesar da Prefeitura, de março de 2024, o identifica como engenheiro civil graduado pela UFPB e arquiteto autodidata. O ponto seguro é a formação em Engenharia Civil e o exercício autodidata da arquitetura.

A trajetória de Geraldino Duda, segundo as fontes apuradas
  1. mar. 1935

    Nascimento

    Nasce em Campina Grande. Começa a trabalhar aos nove anos, segundo a pesquisa da UFCG.

  2. anos 1950

    Prancheta aos 15

    Entra no ofício de desenhista no escritório do arquiteto licenciado Josué Barbosa.

  3. 1962

    O teatro

    Aos 27 anos, recebe da Prefeitura a incumbência de projetar o Teatro Municipal.

  4. anos 1960

    As casas

    Assina residências modernas na cidade; oito delas viraram objeto de monografia na UFCG.

  5. anos 1970

    Diploma

    Conclui a graduação em Engenharia Civil, já depois de o teatro estar construído.

  6. 5 mar. 2024

    Morte

    Morre aos 88 anos. A Prefeitura decreta luto oficial de três dias.

O que ele construiu na cidade

A produção de Duda é grande e ainda está sendo inventariada por pesquisadores. Uma entrevista publicada pela UFCG fala em cerca de 300 residências, predominantemente de linguagem moderna. O Docomomo Brasil, organização dedicada à documentação do patrimônio moderno, registra que ele deixou centenas de projetos, entre obras institucionais, de serviços, comerciais, residenciais e urbanas.

Residências de Geraldino Duda identificadas em pesquisa acadêmica
Obra Década/ano Onde está documentada
Residência Emília Dantas Aguiar anos 1960 Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio)
Residência Sosthenis Silva anos 1960 Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio)
Residência Amaro Fiuza anos 1960 Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio)
Residência Aderson Gomes 1964 Brazilian Journal of Development, 2022
Teatro Municipal Severino Cabral 1962 Revista Arquitetura e Lugar (UFCG)

Fonte: Levantamento a partir das pesquisas acadêmicas citadas nas fontes

O traço que se repete nessas obras é o aproveitamento da topografia acidentada de Campina Grande, com concreto aparente, rampas e integração entre o edifício e o terreno. Uma monografia depositada na Biblioteca Digital da UFCG estudou oito residências unifamiliares projetadas por ele na década de 1960, das quais quatro estão nomeadas em artigos derivados da pesquisa.

Esse percurso ajuda a entender por que a obra dele é estudada hoje em programas de arquitetura. A geração que ergueu o conjunto Art Déco do centro de Campina Grande, nas décadas de 1930 e 1940, deu lugar a outra, formada já sob a influência da arquitetura moderna brasileira. Duda pertence a essa segunda leva, que trocou a ornamentação geométrica das fachadas pela liberdade de planta e pelo concreto exposto.

Retrato em preto e branco de Geraldino Duda de perfil, idoso, de óculos e camisa listrada, com o olhar baixo
Geraldino Duda em entrevista concedida a pesquisadores da UFCG em novembro de 2019. Diego Diniz / Revista Arquitetura e Lugar (UFCG)

A cidade também abriga a história de quem nomeou o estilo local: a designer Lia Mônica Rossi cunhou a expressão Déco Sertanejo para o repertório campinense. Entre um capítulo e outro, o que se vê é uma cidade que produziu arquitetura autoral por décadas seguidas, com profissionais que em boa parte aprenderam fora da universidade.

Montagem com plantas baixas e fotografias da Residência Emília Dantas Aguiar, mostrando fachada com pedra aparente, varanda e área interna
Plantas e fotos da Residência Emília Dantas Aguiar, de 1962, em pesquisa da UFCG. Fotomontagem de Camilla Meneses / acervo GRUPAL

A obra que desaparece

O ponto que mais mobilizava o próprio Duda, e que o material trazido à redação pelo colaborador Walter Santos sublinha, é o desaparecimento progressivo dessas construções. Parte das residências foi demolida; outra parte passou por reformas que alteraram a concepção original sem consulta ao autor do projeto. É o que a literatura de patrimônio chama de descaracterização: o imóvel continua de pé, mas perde os elementos que o tornavam documento de uma época.

A diferença é prática. Um bem reconhecido ou tombado impõe limites à intervenção e cria obrigações para proprietário e poder público. Sem esse instrumento, a preservação depende exclusivamente da vontade de quem detém o imóvel, e o registro acadêmico passa a ser, muitas vezes, o único documento que sobra de uma obra já demolida.

D
Docomomo

Organização internacional dedicada à documentação e conservação da arquitetura do movimento moderno. O núcleo brasileiro mantém registros de obras e autores, e foi uma das fontes que documentaram a produção de Geraldino Duda.

Geraldino Pereira Duda morreu em 5 de março de 2024, aos 88 anos, um dia antes de completar 89. A nota de pesar da Prefeitura o registrou como engenheiro e urbanista. A Prefeitura de Campina Grande decretou luto oficial de três dias e o descreveu como ícone da arquitetura moderna da cidade. A expressão “pai da arquitetura moderna de Campina Grande”, usada em homenagens, é uma forma de reconhecimento público, não um título acadêmico ou registro profissional.

Montagem com fotografias e plantas da Residência Amaro Fiuza, com fachada de dois pavimentos, muro de pedra e sala de estar
A Residência Amaro Fiuza, de 1968, em registro do grupo de pesquisa Arquitetura e Lugar. Fotomontagem de Camilla Meneses / acervo GRUPAL

Por que a pesquisa acadêmica virou a principal guardiã

Com poucos registros administrativos disponíveis ao público, boa parte do que se sabe hoje sobre a produção de Geraldino Duda vem de dentro da universidade. Monografias, artigos em periódicos e comunicações em seminários do Docomomo reconstruíram plantas, fotografaram fachadas antes de reformas e registraram entrevistas com o próprio autor enquanto ele era vivo. Em vários casos, esse é o único acervo documental que restou de uma casa já demolida.

Para o leitor que mora na cidade, a consequência prática é simples: várias dessas casas continuam de pé, em bairros como o Centro e a Prata, sem placa, sem registro visível e sem qualquer aviso de que ali está um documento da história urbana de Campina Grande.

Como apuramosMaterial do colaborador Walter Santos, com cada afirmação checada nas fontes listadas.

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