Quando recebeu a incumbência de desenhar um teatro para Campina Grande, em 1962, Geraldino Pereira Duda tinha 27 anos, trabalhava no setor de planejamento da Prefeitura e não havia concluído curso superior nenhum. O prédio que saiu daquela prancheta, o Teatro Municipal Severino Cabral, é hoje um dos edifícios mais reconhecíveis da cidade. Ele só se formaria em Engenharia Civil na década seguinte.
Fonte: Revista Arquitetura e Lugar (UFCG, 2023) e Docomomo Brasil
Do escritório de desenho à Prefeitura
O estudo assinado pelos pesquisadores Diego Diniz e Marjorie Garcia, publicado pela UFCG, registra que Duda começou a trabalhar aos nove anos e entrou aos 15 no ofício de desenhista, no escritório do arquiteto licenciado Josué Barbosa. Foi ali que teve contato com a prática que o acompanharia pela vida inteira, sem passar por uma escola de arquitetura.
Depois, integrou o Departamento de Planejamento e Urbanismo da Prefeitura de Campina Grande e, mais tarde, a Secretaria de Planejamento do município. É essa posição que explica como um profissional jovem recebeu a encomenda do teatro: a administração optou por resolver o projeto com a equipe técnica da casa, em vez de contratar um escritório de fora.
Profissional que exerce a arquitetura sem formação acadêmica na área, aprendendo na prática do desenho e da obra. É como as fontes acadêmicas e a própria Prefeitura de Campina Grande descrevem Geraldino Duda, que só concluiu a graduação em Engenharia Civil anos depois de projetar o teatro.
Há uma divergência documental que não deve ser resolvida por dedução. O estudo da UFCG afirma que ele se graduou em Engenharia Civil na Escola Politécnica de Campina Grande, então ligada à instituição que viria a ser a UFCG. Já a nota oficial de pesar da Prefeitura, de março de 2024, o identifica como engenheiro civil graduado pela UFPB e arquiteto autodidata. O ponto seguro é a formação em Engenharia Civil e o exercício autodidata da arquitetura.
- mar. 1935
Nascimento
Nasce em Campina Grande. Começa a trabalhar aos nove anos, segundo a pesquisa da UFCG.
- anos 1950
Prancheta aos 15
Entra no ofício de desenhista no escritório do arquiteto licenciado Josué Barbosa.
- 1962
O teatro
Aos 27 anos, recebe da Prefeitura a incumbência de projetar o Teatro Municipal.
- anos 1960
As casas
Assina residências modernas na cidade; oito delas viraram objeto de monografia na UFCG.
- anos 1970
Diploma
Conclui a graduação em Engenharia Civil, já depois de o teatro estar construído.
- 5 mar. 2024
Morte
Morre aos 88 anos. A Prefeitura decreta luto oficial de três dias.
O que ele construiu na cidade
A produção de Duda é grande e ainda está sendo inventariada por pesquisadores. Uma entrevista publicada pela UFCG fala em cerca de 300 residências, predominantemente de linguagem moderna. O Docomomo Brasil, organização dedicada à documentação do patrimônio moderno, registra que ele deixou centenas de projetos, entre obras institucionais, de serviços, comerciais, residenciais e urbanas.
| Obra | Década/ano | Onde está documentada |
|---|---|---|
| Residência Emília Dantas Aguiar | anos 1960 | Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio) |
| Residência Sosthenis Silva | anos 1960 | Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio) |
| Residência Amaro Fiuza | anos 1960 | Afonso e Meneses (UFMG/Fórum Patrimônio) |
| Residência Aderson Gomes | 1964 | Brazilian Journal of Development, 2022 |
| Teatro Municipal Severino Cabral | 1962 | Revista Arquitetura e Lugar (UFCG) |
Fonte: Levantamento a partir das pesquisas acadêmicas citadas nas fontes
O traço que se repete nessas obras é o aproveitamento da topografia acidentada de Campina Grande, com concreto aparente, rampas e integração entre o edifício e o terreno. Uma monografia depositada na Biblioteca Digital da UFCG estudou oito residências unifamiliares projetadas por ele na década de 1960, das quais quatro estão nomeadas em artigos derivados da pesquisa.
Esse percurso ajuda a entender por que a obra dele é estudada hoje em programas de arquitetura. A geração que ergueu o conjunto Art Déco do centro de Campina Grande, nas décadas de 1930 e 1940, deu lugar a outra, formada já sob a influência da arquitetura moderna brasileira. Duda pertence a essa segunda leva, que trocou a ornamentação geométrica das fachadas pela liberdade de planta e pelo concreto exposto.

A cidade também abriga a história de quem nomeou o estilo local: a designer Lia Mônica Rossi cunhou a expressão Déco Sertanejo para o repertório campinense. Entre um capítulo e outro, o que se vê é uma cidade que produziu arquitetura autoral por décadas seguidas, com profissionais que em boa parte aprenderam fora da universidade.

A obra que desaparece
O ponto que mais mobilizava o próprio Duda, e que o material trazido à redação pelo colaborador Walter Santos sublinha, é o desaparecimento progressivo dessas construções. Parte das residências foi demolida; outra parte passou por reformas que alteraram a concepção original sem consulta ao autor do projeto. É o que a literatura de patrimônio chama de descaracterização: o imóvel continua de pé, mas perde os elementos que o tornavam documento de uma época.
A diferença é prática. Um bem reconhecido ou tombado impõe limites à intervenção e cria obrigações para proprietário e poder público. Sem esse instrumento, a preservação depende exclusivamente da vontade de quem detém o imóvel, e o registro acadêmico passa a ser, muitas vezes, o único documento que sobra de uma obra já demolida.
Organização internacional dedicada à documentação e conservação da arquitetura do movimento moderno. O núcleo brasileiro mantém registros de obras e autores, e foi uma das fontes que documentaram a produção de Geraldino Duda.
Geraldino Pereira Duda morreu em 5 de março de 2024, aos 88 anos, um dia antes de completar 89. A nota de pesar da Prefeitura o registrou como engenheiro e urbanista. A Prefeitura de Campina Grande decretou luto oficial de três dias e o descreveu como ícone da arquitetura moderna da cidade. A expressão “pai da arquitetura moderna de Campina Grande”, usada em homenagens, é uma forma de reconhecimento público, não um título acadêmico ou registro profissional.

Por que a pesquisa acadêmica virou a principal guardiã
Com poucos registros administrativos disponíveis ao público, boa parte do que se sabe hoje sobre a produção de Geraldino Duda vem de dentro da universidade. Monografias, artigos em periódicos e comunicações em seminários do Docomomo reconstruíram plantas, fotografaram fachadas antes de reformas e registraram entrevistas com o próprio autor enquanto ele era vivo. Em vários casos, esse é o único acervo documental que restou de uma casa já demolida.
Para o leitor que mora na cidade, a consequência prática é simples: várias dessas casas continuam de pé, em bairros como o Centro e a Prata, sem placa, sem registro visível e sem qualquer aviso de que ali está um documento da história urbana de Campina Grande.
Como apuramosMaterial do colaborador Walter Santos, com cada afirmação checada nas fontes listadas.
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