O acervo Art Déco de Campina Grande atravessou oito décadas de pé, mas recua diante das reformas que descaracterizam fachadas e do painel comercial. Espalhado pelo centro, o conjunto arquitetônico dos anos 1930 e 1940 reúne cinemas, prédios públicos e sobrados de comércio. Cidades que enfrentaram o mesmo impasse, com Miami à frente, converteram esse patrimônio arquitetônico em roteiro turístico. Aqui, a revitalização segue engavetada e o turismo se concentra em trinta dias de junho.
Estilo de arquitetura e design surgido nos anos 1920, marcado por linhas geométricas, simetria e elementos decorativos. Deu identidade a prédios de várias cidades no início do século XX.
O Cine Babilônia, de 1939, é o retrato do estilo: marquise em balanço, letreiro e volumes escalonados. A fachada não sobreviveu, descaracterizada por reformas, o mesmo destino do Cine Capitólio, de 1934. Nenhum foi vítima de catástrofe, e sim de decisões pequenas, tomadas uma a uma até cobrir a fachada com um painel maior que o do vizinho.

De onde veio o déco de Campina Grande?
Na primeira metade do século 20, o algodão fez da cidade um dos maiores entrepostos do país, a Liverpool brasileira, e a riqueza do agreste financiou a reforma do centro. Prefeito nas décadas de 1930 e 1940, Vergniaud Wanderley iniciou o remodelamento do centro tradicional em 1936, com leis de cunho sanitarista e urbanístico que alargaram ruas e renovaram fachadas. Foi uma reforma urbana acelerada: em menos de 15 anos a feição da cidade mudou por completo, e o déco, então moderno, virou a linguagem da cidade próspera. Para atender à demanda, construtores da região e arquitetos formados na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro abriram escritórios na cidade, o que ajuda a explicar a unidade estilística do acervo patrimonial do centro.
A pesquisa acadêmica batizou o resultado de déco sertanejo: o déco modesto do agreste, de reboco e geometria, sem o mármore das metrópoles. As soluções arquitetônicas se repetem de fachada em fachada, e cada edificação recita o mesmo vocabulário, obra de mestres de obra mais que de arquiteto erudito.
- 1930-1940
CG ergue seu déco
No auge do algodão, Campina Grande levanta o conjunto art déco que ainda marca o centro.
- 1976
Miami reage
Barbara Capitman funda a Miami Design Preservation League, a primeira Art Déco Society do mundo.
- 2004
CG protege o déco
A área déco central da cidade é delimitada e protegida.
Por que os painéis voltaram?
A primeira etapa da revitalização, no início dos anos 2000, obrigou os lojistas a descobrir as fachadas. Em 2004, a área déco central foi delimitada e protegida. Duas décadas depois, muitas voltaram a sumir atrás de painéis, embora as normas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) vedem a intervenção em imóvel protegido.
Falta o resto: fiscalização, contrapartida ao comerciante e uso do centro fora do horário comercial. O painel dá dinheiro hoje e a fachada só dá dinheiro depois.
Fonte: Pesquisa acadêmica (Revista CPC / USP)
O que Miami fez com o próprio acervo?
Miami Beach serve de espelho. No início dos anos 1970, quando os tratores ameaçavam South Beach, Barbara Capitman se acorrentava aos prédios e, em 1976, fundou a Miami Design Preservation League, a primeira Art Déco Society do mundo. O conjunto arquitetônico foi salvo e hoje é o Art Deco District, a maior concentração déco das Américas e um roteiro turístico consolidado, com o patrimônio transformado em ativo econômico. Goiânia, Niterói e o Rio de Janeiro trilharam caminho parecido, cada uma inventariando a própria edificação déco antes de restaurá-la. “Aprende, Brasil. Aprende, Campina Grande”, resume Marcio Roiter, do Instituto Art Déco Brasil.

Quanto vale um centro que abre o ano inteiro?
O principal produto turístico da cidade, o Maior São João do Mundo, é sazonal: trinta dias de alta temporada não sustentam a hospitalidade o ano inteiro. Um centro histórico restaurado funciona em fevereiro, em agosto e em novembro, sem competir com o São João. E depende menos de grandes obras do que de coordenação entre poder público, comércio e universidades.
| Prédio | Ano | Estado da fachada |
|---|---|---|
| Cine Capitólio | 1934 | Descaracterizado por reformas |
| Cine Babilônia | 1939 | Descaracterizado por reformas |
| Estação Ferroviária | 1961 | Último prédio público déco da cidade |
Fonte: Pesquisa acadêmica (Revista CPC / USP) e Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar
O que sustenta um roteiro déco?
A experiência de Miami Beach não se resume ao tombamento. O distrito histórico da cidade foi inscrito no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos em 1979, três anos depois de Barbara Capitman fundar a liga de preservação, e a área passou a organizar visitas guiadas a pé, sinalização própria e um calendário de eventos em torno da arquitetura. O patrimônio deixou de ser cenário e virou o produto. Em Campina Grande, a proteção legal existe no papel: o Decreto Estadual nº 25.139, de 28 de junho de 2004, tombou em nível estadual o Centro Histórico inicial da cidade ao homologar a deliberação nº 25/2003 do CONPEC, colegiado ligado ao IPHAEP, preservando parte da história de Campina Grande erguida nas décadas de 1930 e 1940. O número de imóveis abrangidos pelo perímetro não foi divulgado no texto do decreto. Entre os exemplares déco preservados e tombados pela prefeitura estão a Biblioteca Municipal, a sede dos Correios e Telégrafos, na Praça da Bandeira, e a atual sede da Prefeitura, o antigo Grande Hotel. O instrumento fixa o perímetro protegido e veda intervenções que descaracterizem as fachadas, mas depende de fiscalização municipal para ter efeito, etapa que os pesquisadores apontam como o elo mais frágil da cadeia.

Os estudos acadêmicos sobre o conjunto se acumulam há mais de uma década. Além do levantamento publicado na Revista CPC, da USP, autores como Marcus Queiroz, Alcília Afonso e Lia Mônica Rossi catalogaram fachadas, datas e autores ao longo dos anos 2000 e 2010. É desse acervo de pesquisa, e não de um inventário oficial, que a cidade tira hoje o mapa do próprio patrimônio. No Brasil, a referência é Goiânia: construída nos mesmos anos de Campina Grande, a capital goiana teve o conjunto déco tombado pelo Iphan, o maior do país e, segundo o instituto, o segundo maior do mundo atrás apenas de Miami, e passou a usá-lo como marca da cidade. Niterói e o Rio de Janeiro seguiram por inventário antes de restaurar. O ponto comum, nos três casos, é a mesma sequência: primeiro o levantamento do que existe, depois a proteção efetiva e, só então, o uso turístico. Campina Grande tem o primeiro passo adiantado pela pesquisa, e travou nos seguintes.
O que falta a Campina Grande?
A cidade não precisa construir nada: o centro histórico já está construído. Falta a continuidade que pesquisadores como Lia Mônica Rossi cobram há anos. Ainda em 2010, Rossi formulou o Programa Campina Grande Déco, uma proposta de revitalização do acervo publicada na Revista UFG, hoje engavetada, com a legislação de proteção descumprida. O que Miami, Goiânia e as cidades mineiras mostram, dizem esses pesquisadores, é que o patrimônio só vira ativo quando a população o reconhece como próprio. Sem esse reconhecimento, o acervo segue à vista de todos e, ainda assim, invisível.
VerificadoInformação checada com fontes independentes: a USP e o Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar.



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