· Campina Grande
CG em Foco

Especiais

Lia Mônica Rossi e a invenção do Déco Sertanejo

Atriz do cinema nacional antes de ser designer, Lia Rossi chegou a Campina Grande no fim dos anos 1990 para dar aula de Desenho Industrial, olhou para as fachadas do centro e viu o que a cidade não via. Do trabalho dela nasceram o nome, o inventário e o tombamento do acervo Art Déco campinense.

Residência Art Déco em Campina Grande com sacada curva, colunas cilíndricas e cobogós, em linguagem náutica inspirada nos vapores.
Foto: Reprodução
Anuncie Aqui editorial@cgemfoco.com.br 728 × 90

Em síntese. O Art Déco de Campina Grande estava à vista de todos e invisível para quase todos. Foi preciso que uma designer argentina, professora de Desenho Industrial, se debruçasse sobre as fachadas do centro para que a cidade descobrisse o que tinha. Lia Mônica Rossi pesquisou, inventariou, deu nome ao conjunto — Déco Sertanejo — e viu a primeira etapa do seu projeto sair do papel. As etapas seguintes nunca vieram.

Antes de Lia Mônica Rossi, houve um aviso — e ele veio de fora. Ainda nos anos 1970, em uma das muitas passagens pela cidade, o cantor e compositor Gilberto Gil se encantou com a arquitetura do centro campinense e disse isso em público. Gil, que enxergava em Campina Grande uma vocação de entreposto e de cruzamento — “a cidade da feira, a cidade do mercado, a cidade do negócio”, nas palavras dele em entrevista ao jornalista Rômulo Azevedo —, foi a primeira personalidade nacional a reparar no acervo. A cidade ouviu, achou simpático e seguiu em frente.

Antes do déco, o cinema

Lia Rossi não chegou à arquitetura pela porta da academia. Argentina, foi atriz de cinema no Brasil antes de se tornar a designer e pesquisadora reconhecida internacionalmente que Campina Grande conheceu — uma trajetória que explica parte do método: quem trabalhou com imagem enxerga fachada como cena, não como planta.

Quem conviveu com ela na cidade descreve uma presença de mil watts, avessa a solenidade e a cara fechada. Os registros do seu tempo de atriz estão hoje sob a guarda do marido, o arquiteto José Marconi Bezerra de Souza, que a acompanhou também nos trabalhos sobre o patrimônio campinense.

A professora que olhou para as fachadas

O olhar sistemático chegou no fim dos anos 1990. Lia Mônica Rossi veio para Campina Grande para lecionar Desenho Industrial na universidade — na época, o campus ainda era da UFPB, e só depois se tornaria UFCG. O que a prendeu não foi o centro monumental: foi o geometrismo que ela reconheceu nas fachadas de prédios periféricos, repetido com teimosia em construções modestas.

Dali saiu um levantamento. Rossi passou a inventariar os imóveis com aquele padrão de estrutura geométrica, apoiada pela arquiteta Cristina Melo e por alunos do curso de Desenho Industrial. O trabalho ganhou forma de projeto — o “Campina Déco” — voltado à preservação e à recuperação das fachadas inventariadas.

Retrato da designer argentina Lia Mônica Rossi, caracterizada com adereços artísticos, em registro fotográfico posado.
Lia Mônica Rossi, designer argentina radicada em Campina Grande. Foi ela quem inventariou o acervo, nomeou o estilo local e desenhou o projeto de revitalização do centro histórico. Morreu em 2018, em Curitiba. Reprodução / Arquivo

O nome: Déco Sertanejo

Depois de anos de estudo da arquitetura urbana campinense, Rossi chegou a uma formulação que pegou: Déco Sertanejo. O termo dava conta exatamente daquilo que fazia o conjunto campinense diferente — não era o déco opulento de mármore e bronze das capitais, era um déco pobre em material e rico em repetição, aplicado por construtores locais em sobrados comerciais, armazéns e casas térreas.

Nomear foi um ato prático, não decorativo. Com nome, o acervo virou assunto: a imprensa local passou a usar o termo, o sociólogo e escritor Noaldo Ribeiro tornou-se um divulgador insistente do tema, o teatrólogo Hermano José entrou na roda, e o projeto ganhou desdobramentos culturais — como a exposição de óleos sobre tela da artista Margarete Aurélio, montada a céu aberto na rua Maciel Pinheiro, e o livro-CD que fixou o assunto na crônica jornalística da cidade.

Vista lateral de residência Art Déco em Campina Grande, com varanda curva, cobogós e colunas, mostrando desgaste na pintura.
A mesma residência, vista de lado: a curva do volume e a marquise contínua citam os vapores fluviais — a linguagem “náutica” que o Art Déco espalhou pelo mundo. O desgaste da pintura mostra o estado atual do imóvel. Reprodução

A operação que descobriu o centro

A virada material veio no início dos anos 2000. Sensibilizado pelo trabalho de Rossi, o poder público municipal deu início ao projeto de revitalização do centro Art Déco — e a primeira etapa foi, literalmente, uma operação de descoberta: obrigar os lojistas a retirar os imensos painéis de letreiros e propaganda, muitos em luxalon, que cobriam as fachadas havia décadas.

Foi o momento em que Campina Grande viu o próprio centro histórico pela primeira vez. Sob os painéis, apareceram platibandas, frisos, aletas, coroamentos — um conjunto de bens arquitetônicos que estava lá o tempo inteiro, escondido pela paisagem comercial.

A proteção legal veio a partir daí: com base nos estudos de Rossi, a área déco central da cidade foi delimitada e tombada em 2004, na gestão de Cássio Cunha Lima à frente do governo do estado. Foi o passo que transformou o levantamento acadêmico em política de preservação — e o que garante, até hoje, que uma parte do acervo não possa ser legalmente demolida.

Fachada Art Déco amarela no centro de Campina Grande, com frisos geométricos e coroamento escalonado.
Fachada revelada: sem o painel comercial, o desenho geométrico do coroamento volta a ser legível da calçada. Prefeitura de Campina Grande / Divulgação

O que ficou pelo caminho

O plano de Rossi não terminava ali. As fases seguintes previam um projeto cromático para os sobrados — as cores certas para cada tipo de fachada — e uma política de ação cultural, gastronomia e lazer que desse vida ao centro depois de restaurado. Sem essas etapas, a revitalização parava no meio: fachadas descobertas, mas nenhuma razão nova para a cidade ocupar o lugar.

Nada disso avançou. Rossi deixou Campina Grande e mudou-se para Curitiba, onde seu trabalho encontrou mais ressonância. Morreu em 2018. O projeto de revitalização do centro histórico permanece onde ela o deixou: à espera de ser desengavetado. Antes dela, praticamente ninguém na cidade sabia o que era Art Déco; depois dela, a cidade tem nome, inventário e lei para aquilo que sempre teve à vista.

Sem a continuidade, o efeito se inverteu com o tempo — e é disso que trata a terceira e última parte desta série: as fachadas voltaram a ser cobertas, os cinemas foram desfigurados, e a cidade continua sem responder à pergunta que Miami respondeu há cinquenta anos.

Anuncie Aqui editorial@cgemfoco.com.br
Anuncie Aqui editorial@cgemfoco.com.br 300 × 250

Atualizado em · Politica de correcoes

Fontes

Anuncie Aqui editorial@cgemfoco.com.br 728 × 90

Comentários

  • Carregando comentários…

Newsletter CG em Foco

Newsletter · CG em Foco

Síntese diária com as principais reportagens, dados e análises factuais sobre Campina Grande, Paraíba e Brasil. Sem spam. Cancele quando quiser.