O Art Déco de Campina Grande estava à vista de todos e invisível para quase todos. Foi preciso que uma designer argentina, professora de Desenho Industrial, se debruçasse sobre as fachadas do centro para que a cidade descobrisse o que tinha diante dos olhos. Lia Mônica Rossi pesquisou o conjunto, inventariou os imóveis e lhe deu um nome, Déco Sertanejo. Viu a primeira etapa do seu projeto sair do papel. As seguintes nunca vieram.
Antes de Rossi, houve um aviso, e ele veio de fora. Ainda nos anos 1970, em uma das muitas passagens pela cidade, o cantor e compositor Gilberto Gil se encantou com a arquitetura do centro campinense e o disse em público. Gil enxergava em Campina Grande, no agreste da Paraíba, uma vocação de entreposto e de cruzamento, “a cidade da feira, a cidade do mercado, a cidade do negócio”, segundo declarou em entrevista ao jornalista Rômulo Azevedo. Foi a primeira personalidade nacional a reparar no acervo. A cidade ouviu, achou simpático e seguiu em frente.
Fonte: IPHAEP e pesquisa acadêmica (Revista CPC / USP)
Quem foi Lia Mônica Rossi antes do déco?
Rossi não chegou à arquitetura pela porta da academia. Argentina, foi atriz de cinema no Brasil antes de se tornar a designer e pesquisadora reconhecida internacionalmente que Campina Grande conheceu. A trajetória explica parte do método: quem trabalhou com imagem enxerga fachada como cena, não como planta. Quem conviveu com ela na cidade descreve uma presença de mil watts, avessa à solenidade e à cara fechada. Os registros do seu tempo de atriz estão hoje sob a guarda do marido, o arquiteto José Marconi Bezerra de Souza, que a acompanhou também nos trabalhos sobre o patrimônio campinense.

A professora que olhou para as fachadas
O olhar sistemático chegou no fim dos anos 1990. Rossi veio para Campina Grande lecionar Desenho Industrial na universidade. Na época, o campus ainda era da UFPB, e só depois se tornaria a Universidade Federal de Campina Grande, a UFCG. O que a prendeu não foi o centro monumental. Foi o geometrismo que ela reconheceu nas fachadas de prédios periféricos, repetido com teimosia em construções modestas.
Dali saiu um levantamento. Rossi passou a inventariar os imóveis com aquele padrão de estrutura geométrica, apoiada pela arquiteta Cristina Melo e por alunos do curso de Desenho Industrial. O trabalho ganhou forma de projeto, o “Campina Déco”, voltado à preservação e à recuperação das fachadas inventariadas, no cruzamento entre design, urbanismo e patrimônio.

O nome: Déco Sertanejo
Depois de anos de estudo da arquitetura urbana campinense, Rossi chegou a uma formulação que pegou: Déco Sertanejo. O termo dava conta exatamente do que fazia o conjunto campinense diferente. Não era o déco opulento de mármore e bronze das capitais. Era um déco pobre em material e rico em repetição, aplicado por construtores locais em sobrados comerciais, armazéns e casas térreas.
O Art Déco nasceu como linguagem internacional na Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, em 1925, e se espalhou pelo mundo nas décadas seguintes, das capitais às cidades do interior do Nordeste. Chegou ao Brasil traduzido em vocabulário geométrico, linhas escalonadas e a inspiração náutica dos transatlânticos, referência que as residências de sacada curva e marquise do centro campinense repetem. Em Campina Grande, esse repertório desembarcou na esteira da reforma urbana iniciada em 1936 pelo então prefeito Vergniaud Wanderley, que remodelou o centro, e ganhou corpo, entre os anos 1930 e 1940, em prédios como o Cine Teatro Capitólio, o Grande Hotel (hoje sede da Prefeitura), o Edifício dos Correios e a Biblioteca Municipal, segundo levantamento do Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar. Foi aí que o estilo encontrou o tijolo e a argamassa dos mestres de obra locais, e essa adaptação de um repertório mundial a meios modestos foi o que Rossi sintetizou na expressão que batizou o conjunto.
Nomear foi um ato prático, não decorativo. Com nome, o acervo virou assunto. A imprensa local passou a usar o termo, o sociólogo e escritor Noaldo Ribeiro tornou-se um divulgador insistente do tema e o teatrólogo Hermano José entrou na roda. Na academia, o Déco Sertanejo alimentou novas pesquisas, como o estudo do pesquisador Marcus Queiroz, de 2008, sobre a arquitetura moderna da cidade. O projeto ganhou desdobramentos culturais, como a exposição de óleos sobre tela da artista Margarete Aurélio, montada a céu aberto na rua Maciel Pinheiro, e o livro-CD que fixou o assunto na crônica jornalística da cidade.
Como a cidade descobriu o próprio centro?
A virada material veio no início dos anos 2000. Sensibilizado pelo trabalho de Rossi, o poder público municipal deu início ao projeto de revitalização do centro Art Déco. A primeira etapa foi uma operação de descoberta: obrigar os lojistas a retirar os imensos painéis de letreiros e propaganda, muitos em luxalon, que cobriam as fachadas havia décadas. Foi o momento em que Campina Grande viu o próprio centro histórico pela primeira vez: sob os painéis, apareceram platibandas, frisos, aletas e coroamentos, um conjunto de bens arquitetônicos que estava lá o tempo inteiro, escondido pela paisagem comercial.
- Anos 1970
O primeiro aviso
Gilberto Gil elogia publicamente a arquitetura do centro de Campina Grande.
- Fim dos anos 1990
A chegada de Lia Mônica Rossi
A designer vem lecionar Desenho Industrial e reconhece o déco nas fachadas periféricas.
- Início dos anos 2000
A operação de descoberta
O município inicia a revitalização e obriga lojistas a retirar os letreiros que cobriam as fachadas.
- 2004
Tombamento
A área déco central é delimitada e tombada, na gestão de Cássio Cunha Lima no governo do estado.
- 2018
A morte de Rossi
Já em Curitiba, ela morre; o projeto de revitalização permanece à espera de ser desengavetado.
A proteção legal veio a partir daí. Com base nos estudos de Rossi, a área déco central da cidade foi delimitada e tombada em 28 de junho de 2004, por decreto estadual, na gestão de Cássio Cunha Lima à frente do governo do estado. Foi o passo que transformou o levantamento acadêmico em política de preservação e que garante, até hoje, que o tombamento impeça a demolição legal de parte do acervo.

O que ficou pelo caminho
O plano de Rossi não terminava ali. As fases seguintes previam um projeto cromático para os sobrados, com as cores certas para cada tipo de fachada, e uma política de ação cultural, gastronomia e lazer que desse vida ao centro depois de restaurado. Sem essas etapas, a revitalização parava no meio: fachadas descobertas, mas nenhuma razão nova para a cidade ocupar o lugar. Nada disso avançou. Rossi deixou Campina Grande e mudou-se para Curitiba, onde seu trabalho encontrou mais ressonância. Morreu em 2018. Antes dela, praticamente ninguém na cidade sabia o que era Art Déco; depois dela, a cidade tem nome, inventário e lei para aquilo que sempre teve à vista. Sem a continuidade, o efeito se inverteu com o tempo, e é disso que trata a terceira e última parte desta série: as fachadas voltaram a ser cobertas, os cinemas foram desfigurados, e a cidade continua sem responder à pergunta que Miami respondeu há cinquenta anos.
VerificadoInformação checada com fontes independentes: a USP e o Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar.



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