Campina Grande guarda, à vista de todos e ao mesmo tempo despercebido, um dos maiores conjuntos arquitetônicos Art Déco do mundo. Espalhado pelo centro da cidade e por bairros vizinhos, o acervo é resultado de uma transformação urbana radical conduzida no auge do ciclo do algodão — e, oito décadas depois, permanece subaproveitado como atrativo turístico e cultural.
O estilo Art Déco nasceu na Europa e ganhou projeção mundial a partir da Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, em 1925. Marcado pelo geometrismo e por referências a diferentes culturas, influenciou a arquitetura, a moda, o design de móveis e objetos e a indústria em toda a Europa e nas Américas. No Brasil, poucas cidades absorveram o estilo de forma tão concentrada quanto Campina Grande.
O algodão que redesenhou a cidade
A chegada do Art Déco a Campina Grande está diretamente ligada à prosperidade do “ouro branco”. Entre o fim dos anos 1930 e a primeira metade dos anos 1940, os primeiros exemplares do estilo começaram a surgir na cidade, então um dos principais entrepostos de algodão do país.
Foi durante a gestão do prefeito Vergniaud Wanderley, na primeira metade da década de 1940, que a transformação ganhou escala. Amparada pela riqueza gerada pelo comércio algodoeiro, a administração municipal promoveu uma ampla reforma urbana no centro da cidade, padronizando fachadas e substituindo construções de estilos anteriores — coloniais, ecléticos e Art Nouveau — pela linguagem moderna da época.
O resultado, consolidado ao longo dos anos 1940 e 1950, foi a formação de um conjunto homogêneo e de grande extensão, característica que pesquisadores apontam como rara. Estudos acadêmicos sobre o período descrevem a mudança como uma das mais intensas reconfigurações urbanas já registradas em uma cidade brasileira de porte médio.
Um patrimônio “escondido”
Por décadas, boa parte das fachadas Art Déco do centro permaneceu encoberta por grandes letreiros e revestimentos comerciais, o que dificultava a percepção do conjunto pela própria população. O acervo só voltaria a ganhar atenção a partir dos anos 1990, quando pesquisadores, jornalistas e arquitetos passaram a defender sua valorização.
A antiga Estação Ferroviária, conhecida como Estação Nova, é um dos exemplares mais emblemáticos e costuma ser citada como o último grande edifício público Art Déco erguido na cidade, encerrando o ciclo do estilo.
O programa Campina Déco
O esforço de preservação ganhou forma institucional em 1999, com a criação do programa Campina Déco, voltado à requalificação de uma área central que reúne cerca de 150 edificações. A iniciativa incluiu ações de recuperação de fachadas e de reconhecimento do valor histórico do conjunto, que passou a integrar as discussões sobre patrimônio na Paraíba.
Trabalhos acadêmicos das universidades locais e de instituições como a USP ajudaram a documentar e dimensionar o acervo, reforçando a tese de que Campina Grande figura entre as principais referências mundiais do estilo — ao lado de cidades reconhecidas internacionalmente por seus conjuntos Art Déco.
Do potencial turístico à comparação internacional
Defensores da valorização do conjunto sustentam que o acervo poderia sustentar uma vocação turística permanente para a cidade, hoje concentrada sobretudo no período do São João. A comparação recorrente é com destinos que transformaram o Art Déco em marca cultural, caso do bairro histórico de Miami Beach, nos Estados Unidos, e de iniciativas museológicas em cidades europeias.
A avaliação, contudo, é objeto de debate. A dimensão exata do conjunto, o número de edificações preservadas e o alcance dos programas de revitalização variam conforme a fonte e o período analisado — reflexo de um patrimônio que, apesar de reconhecido por especialistas, ainda carece de inventário amplamente consolidado e de política contínua de preservação.
Conhecer para preservar
O que parece consensual entre pesquisadores é o diagnóstico de que o reconhecimento público do acervo permanece aquém de sua importância. Divulgar, inventariar e preservar o conjunto Art Déco é apontado como condição para que a cidade construa, em torno dele, um senso de pertencimento e, eventualmente, uma economia cultural.
Oito décadas depois da reforma que lhe deu forma, o Art Déco de Campina Grande segue como um capítulo vivo — e ainda pouco contado — da história urbana da Rainha da Borborema.
Nota da Redação: dados sobre o número de edificações e a extensão do conjunto variam entre as fontes consultadas e foram apresentados com a devida ressalva. Complementos e correções podem ser enviados para marketing@gmtrack.com.br.
Atualizado em · Politica de correcoes
Comentários