Entre o fim dos anos 1930 e o início dos anos 1950, Campina Grande trocou de rosto. Financiada pelo auge do ciclo do algodão e conduzida pela reforma urbana do prefeito Vergniaud Wanderley, a cidade demoliu o casario antigo, de feições ainda presas ao ecletismo, e reergueu o centro no estilo Art Déco, o mesmo que Paris apresentara ao mundo em 1925. Oito décadas depois, o conjunto continua de pé, e continua desconhecido pela cidade que o construiu.
Estilo de arquitetura e design surgido nos anos 1920, marcado por linhas geométricas e simetria, que marcou a paisagem construída de muitas cidades no início do século XX.
Há uma Campina Grande dentro de Campina Grande que quase ninguém enxerga. Ela está nas aletas verticais de um sobrado da rua Maciel Pinheiro, no coroamento escalonado de um armazém, na esquina curva de um prédio comercial que hoje abriga uma loja de celulares. É o acervo Art Déco da cidade, um conjunto arquitetônico que pesquisadores apontam entre os mais extensos e homogêneos das Américas, atravessado todos os dias por quem não sabe o que vê. O estilo nasceu na Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris, em 1925, e da expressão francesa arts décoratifs veio o nome; entre 1920 e 1950 foi a vanguarda, na arquitetura, no design e na moda.

O ouro branco pagou a conta
A chegada desse repertório ao agreste da Paraíba não foi acaso. Foi dinheiro. Campina Grande vivia o auge do ciclo do algodão e era uma das principais praças exportadoras da fibra no mundo, comparada, nos relatos da época, à inglesa Liverpool. Nenhuma outra cidade do interior do Nordeste concentrava, ao mesmo tempo, tanto capital de exportação e tanta ambição de se mostrar moderna.
Os primeiros exemplares surgiram nos anos 1930, entre eles o Cassino Eldorado, de 1937. A virada veio na década seguinte. Entre 1940 e 1945, a gestão de Vergniaud Wanderley, patrocinada pelo mecenato dos senhores do algodão, transformou o centro num canteiro contínuo de demolições e obras, redesenhado por arquitetos vindos da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio. Quando a poeira baixou, a cidade era moderna muito antes de Brasília existir no papel.
- 1925
Nasce o Art Déco
A Exposição Internacional de Artes Decorativas de Paris batiza o estilo, do francês arts décoratifs.
- Anos 1930
Primeiros exemplares em Campina Grande
Entre eles o Cassino Eldorado, de 1937, no auge do ciclo do algodão.
- 1940-1945
A reforma de Vergniaud Wanderley
Patrocinada pelo mecenato do algodão, redesenha o centro num canteiro contínuo de obras.
- 1950
Correios, a exceção tardia
Inaugurado em 9 de julho, com torre do relógio e o volume curvo envidraçado na esquina.
- Fim dos anos 1990
O olhar que revalorizou
Uma designer argentina passa a enxergar as fachadas de um jeito que ninguém olhava.
Um déco sem mármore
O Art Déco campinense não é o do Rio de Janeiro. Falta-lhe a opulência dos mármores e dos ferros trabalhados. O prédio dos Correios, inaugurado em 9 de julho de 1950, é a exceção que confirma a regra, com a torre do relógio e o volume curvo envidraçado na esquina.
O que se espalha pelo resto do centro é o que pesquisadores batizaram de déco sertanejo, um déco econômico, feito de reboco e geometria: platibandas escalonadas, frisos horizontais, cantos arredondados, aletas verticais que fingem altura onde há dois pavimentos. É essa repetição barata e teimosa, rua após rua, que produz a homogeneidade rara do conjunto e distingue o caso campinense de outros centros do Nordeste, como o Recife.
Fonte: Marcus Queiroz, Revista CPC nº 11 (USP, 2011)
Patrimônio guardado pela pesquisa
O acervo não se limita ao eixo comercial: avança pelo entorno e chega à periferia, em casas térreas cujas fachadas repetem, em escala doméstica, o repertório dos sobrados do centro. Boa parte, porém, já se perdeu, demolida ou descaracterizada por reformas que apagaram platibandas. Esse patrimônio cultural nunca foi contado de forma pública: quantas edificações déco ainda restam de pé no centro histórico é um número que nenhum órgão oficial divulgou, e o próprio inventário do conjunto coube à pesquisa acadêmica, não a um cadastro do poder público.

A diferença entre ter um acervo e protegê-lo aparece na comparação com Goiânia. A capital goiana, construída nos mesmos anos, transformou o déco em política pública: o poder público protegeu o conjunto pelo tombamento no Iphan, o maior do país e o segundo maior do mundo atrás de Miami, e o explora como marca. Em Campina Grande, o inventário desse patrimônio arquitetônico coube menos à prefeitura do que às pesquisas acadêmicas, como o levantamento publicado na Revista CPC, da USP, e o do Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar, que catalogaram fachadas que nenhuma lei municipal blindou. Sem proteção equivalente, a conservação do conjunto fica exposta à pressão imobiliária, que a cada construção substitui a fachada antiga pela vitrine, e o que resta desse legado depende menos do tombamento do que do acaso.

O que a lei protege, e o que a pesquisa registrou
A proteção formal do conjunto veio em 2004. O centro déco foi delimitado como área histórica pelo Decreto Estadual nº 25.139, de 28 de junho de 2004, que homologou a deliberação nº 25/2003 do CONPEC, colegiado ligado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP). O ato fixou o perímetro sob tutela e vedou obras que descaracterizem as fachadas protegidas, mas a fiscalização e o cumprimento seguem a cargo do município. O que a norma não trouxe foi um número: o total de edificações abrangidas pela delimitação não consta em base oficial acessível, o que deixa o alcance concreto da tutela sem uma medida pública.
Se a norma existe, o inventário do que ela deveria proteger nasceu, em boa parte, fora do poder público. Pesquisadores em arquitetura mapearam datas, autores e características do conjunto ao longo dos anos 2000 e 2010. Trabalhos de Marcus Queiroz, de Alcília Afonso e da designer Lia Mônica Rossi, somados ao levantamento da Revista CPC, da USP, e à síntese de Hugo Segawa sobre a arquitetura brasileira, compõem hoje a principal base de dados sobre as fachadas déco campinenses. Foi a pesquisa, e não um cadastro oficial, que deu nome e idade a cada prédio, e é dela que vem quase tudo o que hoje se sabe sobre o centro histórico de Campina Grande.

Do ponto de vista técnico, o repertório é reconhecível: concreto armado, formas geométricas, linhas verticais e a volumetria escalonada das platibandas, muitas vezes em tons de rosa e ocre. É esse mesmo vocabulário, aplicado com material barato, que se repete do sobrado comercial à casa térrea da periferia e produz a homogeneidade que os estudiosos consideram rara no país. Internacionalmente, o auge do estilo se deu entre 1925 e 1939; em Campina Grande, o ciclo se estendeu por mais tempo, com exemplares tardios erguidos já nos anos 1950, quando outras cidades brasileiras migravam para o modernismo.
Fica a pergunta: com um acervo desse tamanho, por que ele nunca virou o ativo que poderia ser? A resposta passa por uma designer argentina que chegou à cidade no fim dos anos 1990 e passou a olhar para essas fachadas de um jeito que ninguém olhava, tema da próxima reportagem da série.
VerificadoInformação checada com fontes independentes: a USP e o Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar.
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