No Maracanãzinho lotado do Rio de Janeiro, em 22 de junho de 1963, uma jovem de Campina Grande chegou ao concurso Miss Brasil precedida de um elogio raro. A revista O Cruzeiro a apontou como o rosto mais bonito da disputa. Kalina Lígia Duarte Nogueira, a Miss Paraíba daquele ano, deixou o concurso sem passar às finalistas, mas o episódio ficou guardado na memória da cidade.
Nos anos 1950 e 1960, o Miss Brasil ocupava as capas das revistas semanais e reunia plateias de dezenas de milhares de pessoas. Foi nesse cenário que a campinense se tornou, por algumas semanas de 1963, uma das mulheres mais fotografadas do país. A imprensa que cobria o certame destacava seus traços naturais, o uso discreto de maquiagem e uma fotogenia que rendeu manchetes.
- 1963
Miss Paraíba
Kalina Lígia Duarte Nogueira conquista a faixa estadual e representa a Paraíba no Miss Brasil.
- 22 jun. 1963
Miss Brasil, no Rio
No Maracanãzinho, é apontada por O Cruzeiro como o rosto mais bonito, mas não passa às finalistas.
- Depois
Da passarela à medicina
Deixa os concursos, forma-se médica pela UFPB e passa a viver em Santos, no litoral paulista.
Por que Kalina era uma das favoritas?
O Miss Paraíba de 1963 foi promovido pelos Diários e Rádios Associados, o conglomerado de comunicação de Assis Chateaubriand, com o respaldo de O Cruzeiro e da TV Tupi. A revista, fundada por Chateaubriand, chegou a tiragens próximas de um milhão de exemplares no período. Representando Campina Grande, Kalina conquistou a faixa estadual e seguiu para a etapa nacional, no Rio de Janeiro, como uma das 24 representantes estaduais daquela edição.
No Maracanãzinho, diante de uma plateia estimada em dezenas de milhares de pessoas, a campinense figurava entre as apostas para o título. Os relatos da época a colocavam no grupo das favoritas, ao lado de nomes que dominavam as colunas sociais dos grandes jornais.

O rosto que a imprensa elegeu
O reconhecimento da imprensa foi o traço mais marcante de sua passagem pelo concurso. Além do destaque de O Cruzeiro, Kalina foi apontada por veículos que cobriam o evento como a candidata mais fotogênica, uma distinção informal, mas de peso, numa disputa em que a imagem era tudo.
A aclamação, porém, não se converteu em classificação. Apesar da repercussão, a Miss Paraíba não figurou entre as semifinalistas do Miss Brasil de 1963, resultado que dividiu opiniões entre o público e a imprensa presentes.

Quem venceu o Miss Brasil de 1963?
O título nacional daquele ano foi para a gaúcha Ieda Maria Vargas, de Porto Alegre. Semanas depois, em 20 de julho de 1963, em Miami Beach, nos Estados Unidos, Ieda se tornou a primeira brasileira a vencer o Miss Universo, um marco na história dos concursos no país. Ela morreu em dezembro de 2025, aos 80 anos, em Gramado (RS).
O desfecho ajuda a dimensionar o ambiente em que Kalina se apresentou. O Miss Brasil de 1963 revelaria a primeira campeã universal brasileira, num dos anos mais lembrados da história desses certames.

Nenhuma das cinco primeiras colocadas veio do Nordeste: o grupo de honra reuniu representantes do Rio Grande do Sul, do Paraná, da Guanabara, do Distrito Federal e de São Paulo. A vizinha Pernambuco, representada pela Miss Pernambuco Vera Lúcia Torres Bezerra, também deixou o concurso sem alcançar as finalistas, no mesmo lote de candidatas nordestinas barradas naquela edição. O resultado situa a eliminação de Kalina num quadro regional mais amplo.
O que aconteceu nos bastidores?
Por mais de cinquenta anos, a não classificação de Kalina permaneceu sem explicação pública. Foi a própria ex-miss quem revelou, décadas depois, o que teria ocorrido. Segundo seu relato, o pai, que a acompanhou ao Rio de Janeiro contra a vontade dela, envolveu-se em uma discussão com o júri do concurso momentos antes da primeira apresentação.

Comunicada de que estava fora da disputa, Kalina decidiu, ainda assim, desfilar. Em respeito à Paraíba e a Campina Grande, cumpriu as três apresentações sob aplausos, sem que o público entendesse, naquela noite, por que a favorita não figurava entre as classificadas.
Como foi o retorno a Campina Grande?
De volta à Paraíba, Kalina foi recebida com festa. Desfilou em carro aberto pelas ruas centrais de Campina Grande, acenando para a multidão que se reuniu para vê-la. No ano seguinte, durante as comemorações do Centenário da cidade, em 1964, voltou a desfilar em carro aberto, ao lado de Rosalma Andrade, a Miss Paraíba de 1964, sob aplausos nas ruas da Rainha da Borborema.

Do palco às salas de aula
Encerrada a temporada como Miss Paraíba, Kalina Nogueira tomou um rumo distinto do de muitas misses de sua geração. Em vez de seguir na carreira ligada à beleza, dedicou-se aos estudos e formou-se em Medicina pela Universidade Federal da Paraíba. Depois, fez residência em pneumologia no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e fixou-se em Santos, no litoral paulista. Sua história reúne dois capítulos que raramente se encontram: o da jovem aclamada nas passarelas de 1963 e o da profissional que escolheu a medicina.
Fonte: Registros da imprensa de época e acervo pessoal
Uma memória campinense
A passagem de Kalina pelo Miss Brasil integra a memória afetiva de Campina Grande, o registro de uma época em que a cidade, no auge de sua efervescência cultural, projetou uma de suas filhas no maior palco de beleza do país. Mais de seis décadas depois, a história permanece como retrato do glamour dos concursos de meados do século XX e do lugar que Campina Grande ocupou, ainda que por um breve período, no centro das atenções nacionais.

Nota da Redação: esta reportagem foi produzida com base em registros da imprensa da época, em material de acervo pessoal e em relatos históricos. Os episódios de bastidores do concurso são atribuídos ao relato da própria Kalina Nogueira, revelado por ela décadas depois, e a testemunhos de quem acompanhou os fatos, tratados como memória e não como fato documentado. Correções e complementos podem ser enviados para editorial@cgemfoco.com.br.
VerificadoInformação checada com fontes independentes: o acervo Passarela Cultural e a Wikipédia.
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