Quando junho termina, Campina Grande muda de ritmo, não de vocação. Passada a temporada do Maior São João do Mundo, ficam de pé um museu assinado por Oscar Niemeyer, um dos maiores conjuntos art déco do país e a orla que é o cartão-postal da cidade. É um roteiro que quase nenhum turista conhece, e que muitos campinenses nunca fizeram. Comece pelo Açude Velho: segundo a Prefeitura de Campina Grande, o reservatório foi construído em 1830 e ocupa uma área de cerca de 47 mil m² no centro da cidade. É a orla onde o morador caminha, corre e para no fim da tarde para ver o sol descer atrás dos prédios. Mais do que cartão-postal, o açude cumpre função urbana, virou o principal espaço público de lazer e caminhada do centro e serve de referência para localizar quase todos os outros pontos deste roteiro cultural, que gravitam ao seu redor.
O Museu de Arte Popular da Paraíba é a última obra de Oscar Niemeyer. O arquiteto desenhou três salas circulares de concreto, aço e vidro, que renderam ao prédio o apelido de Museu dos Três Pandeiros, e não o viu aberto: inaugurado em 2012 e franqueado ao público em 2014, dois anos depois de sua morte. Ligado à UEPB, o acervo guarda a cultura popular do Nordeste, do cordel à xilogravura, e homenageia gente que nasceu desse chão, como Jackson do Pandeiro e Sivuca. Se o tempo for curto, é aqui que ele deve ser gasto.

O Museu de Arte Popular da Paraiba, o Museu dos Tres Pandeiros, na orla do Acude Velho. Wikimedia Commons
Autor dos edifícios de Brasília, Niemeyer projetou o museu campinense já centenário e morreu em dezembro de 2012, o que coloca a obra entre as últimas de sua carreira. As três salas cilíndricas dialogam com a assinatura curvilínea que marcou toda a sua trajetória, e o prédio, instalado na própria orla do Açude Velho, virou ponto de referência visual da cidade, tão fotografado quanto o espelho d’água que o cerca. Por estar vinculado a uma universidade estadual, o museu funciona como equipamento público, o que amplia o acesso ao acervo de arte popular.
Ainda na margem do açude, dois monumentos completam a leitura da cultura popular local: segundo a Prefeitura, o monumento Os Pioneiros da Borborema representa o indígena, o catador de algodão e o tropeiro que formaram a cidade, e a Farra de Bodega reúne estátuas em bronze de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, os dois nomes maiores do forró nascidos nessa região.
| Lugar | O que é |
|---|---|
| Museu dos Três Pandeiros | Última obra de Niemeyer, cultura popular (UEPB) |
| Açude Velho | Construído em 1830, ~47 mil m², orla e cartão-postal |
| **Vila do Artesão** | Ateliês de artesanato o ano todo |
| Centro art déco | ~150 imóveis, tombados desde 2004 |
| Estação Nova | Art déco de 1961, hoje Museu do Algodão |
| Parque do Povo | Palco a céu aberto do São João |
Fonte: Redação CG em Foco, com Prefeitura de Campina Grande, IPHAEP e UEPB
Do museu ao artesanato é uma caminhada curta. A Vila do Artesão reúne os ateliês onde o trabalho manual da região, o bordado, o couro, o barro, a cerâmica, é feito e vendido o ano todo, não apenas durante o Salão do Artesanato. É onde se compra uma peça com procedência, das mãos de quem a fez, e se conversa com o artesão sobre a técnica antes de levar a lembrança para casa, a poucos passos da orla do Açude Velho e do centro histórico.

A Vila do Artesao concentra a producao artesanal o ano todo, em Campina Grande. Reprodução / Paraíba Criativa
A poucos quarteirões está a identidade mais singular da cidade: o conjunto art déco erguido entre os anos 1930 e 1940, com o dinheiro do algodão. São cerca de 150 imóveis de fachadas geométricas, um dos maiores acervos do estilo no Brasil, protegidos por tombamento estadual desde 2004, a cargo do IPHAEP. No mesmo perímetro, o Palácio do Bispo está em obras para virar centro cultural. O fio que costura boa parte desse roteiro é o algodão. Na primeira metade do século 20, Campina Grande se firmou como um dos maiores entrepostos de algodão do país, ponto de escoamento da fibra produzida no sertão rumo ao litoral e à exportação. Foi essa riqueza que ergueu as fachadas geométricas do centro e financiou os prédios que hoje contam a história econômica da cidade. Quando o ciclo entrou em declínio, o casario ficou como registro do período, o que ajuda a explicar por que um estilo associado a grandes metrópoles aparece, aqui, com tanta densidade e num interior do Nordeste.
Fonte: IPHAEP / Redação CG em Foco
O passado também mora nos trilhos. A Estação Nova, inaugurada em 1961 e um dos últimos prédios art déco da cidade, abriga hoje o Museu do Algodão, que conta o ciclo econômico que fez de Campina Grande um entreposto entre o sertão e o litoral. A ferrovia foi o meio que ligou a cidade a esse comércio: era pelos trilhos que a fibra chegava para ser negociada e seguia adiante, o que faz da estação um capítulo do mesmo enredo do algodão que moldou o centro art déco.
- 1830
Açude Velho
Construído com cerca de 47 mil m², vira orla e cartão-postal da cidade.
- 1930-1940
O conjunto art déco
Erguido no centro com o dinheiro do ciclo do algodão.
- 1961
Estação Nova
Um dos últimos prédios art déco, hoje Museu do Algodão.
- 2004
Tombamento estadual
O IPHAEP passa a proteger as fachadas do centro histórico.
- 2014
Museu de Arte Popular
Última obra de Niemeyer, aberta ao público dois anos após sua morte.
Fecham o percurso dois palcos de escalas opostas: o Teatro Municipal Severino Cabral, principal sala coberta da cidade, com temporada o ano inteiro, e o Parque do Povo, o palco a céu aberto que, fora de junho, troca a multidão pela memória da festa que projetou a cidade no país. O Parque do Povo é o endereço oficial do São João de Campina Grande, um dos maiores do mundo, e concentra a cidade cenográfica montada a cada junho para receber os shows de forró e as quadrilhas. Fora da temporada, o espaço fica vazio, mas segue de pé como marco da festa e como equipamento que dá a dimensão do evento que movimenta a economia da cidade no meio do ano. Visitá-lo em qualquer outro mês é ver o palco sem a plateia, útil para entender o tamanho da estrutura por trás do São João.
O Teatro Municipal Severino Cabral, por sua vez, mantém o calendário ativo o ano inteiro, com espetáculos, recitais e eventos que fazem dele a principal sala fechada da cidade, com programação cultural regular. É o contraponto coberto ao Parque do Povo: enquanto um concentra a festa sazonal a céu aberto, o outro sustenta a agenda cultural regular, à qual o morador pode recorrer em qualquer época.
O São João projetou Campina Grande para o Brasil. O resto do calendário mostra uma cidade cuja identidade também se construiu na arquitetura, no artesanato, na ferrovia e na cultura popular, e que cabe num fim de semana em qualquer mês fora de junho.
VerificadoInformação checada com fontes independentes: a Prefeitura de Campina Grande e o IPHAEP.
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