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Cultura

Oficina de letramento racial prepara a equipe do São João de Campina Grande

Antes da festa, a produção do Maior São João do Mundo reuniu sua equipe na Pirâmide do Parque do Povo para discutir racismo estrutural e gestão de evento antirracista.

Pessoas sentadas em roda de cadeiras na Pirâmide do Parque do Povo, com decoração junina, diante de um palco com telão sobre letramento racial.
A oficina reuniu a equipe do São João em roda na Pirâmide do Parque do Povo, sob decoração junina. Prefeitura de Campina Grande
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A produção de O Maior São João do Mundo promoveu uma Oficina de Letramento Racial e Gestão de Evento Antirracista para os profissionais que organizam a festa. A atividade aconteceu em 15 de junho de 2026, na Pirâmide do Parque do Povo, em Campina Grande, e reuniu a equipe em roda para discutir como combater o preconceito no maior evento da cidade.

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Letramento racial

Processo de formação que ajuda pessoas a reconhecer como o racismo opera na sociedade, muitas vezes de forma velada, e a agir para combatê-lo. Mais do que uma condenação genérica do preconceito, o letramento racial trabalha situações concretas do dia a dia, para que quem passou pela formação saiba identificar e interromper práticas discriminatórias no seu ambiente de trabalho.

A oficina foi conduzida por Carla Borba, jornalista, professora e pesquisadora de relações étnico-raciais, que também coordena a assessoria de imprensa do evento. Ela situou a discussão no contexto do país e da própria festa, ao lembrar que nenhum espaço está imune ao problema. Segundo a jornalista Myrlla dos Anjos, que participou da atividade, foram quase duas horas de estudos de caso e escuta e troca de experiências entre os presentes, um formato pensado para conscientizar sem se resumir a uma palestra teórica.

Uma oficina para a equipe do São João

O público da atividade não foi o folião, mas quem faz a festa acontecer nos bastidores. Participaram profissionais da organização e da execução do evento, que atuam em frentes como produção, marketing, controle de acessos, segurança e outros setores estratégicos. A escolha de formar essa equipe tem uma lógica prática: são essas pessoas que tomam decisões e lidam com o público ao longo dos dias de festa. Um episódio de discriminação num camarote, numa fila ou num ponto de venda passa pelas mãos de quem trabalha no evento, e é justamente aí que a formação pretende agir. Ao capacitar quem está na linha de frente, a oficina tenta reduzir a distância entre o discurso de respeito à diversidade e o que de fato acontece no chão da festa, na busca por ambientes mais seguros e acolhedores para o público.

Vista ampla da roda de participantes sentados em cadeiras brancas sob o teto de bandeirinhas juninas da Pirâmide do Parque do Povo.
Profissionais do São João acompanham a oficina em roda, na Pirâmide do Parque do Povo. Prefeitura de Campina Grande

O formato em roda, e não em auditório, também não é casual. Ao dispor os participantes em círculo, a oficina favorece a troca e o relato de experiências, em vez de uma palestra de mão única. Entre os presentes estavam a jornalista Myrlla dos Anjos e o gerente de Marketing da Arte Produções, Pedro Aryell, o que sinaliza o envolvimento de diferentes áreas da produção. Para Myrlla dos Anjos, “foram quase duas horas de atividade que passaram muito rápido”, enquanto Pedro Aryell descreveu o encontro como um espaço aberto “para contribuir, questionar e compartilhar percepções sobre um tema que precisa de amplo debate na sociedade”.

Os temas trabalhados na oficina
Tema Foco da discussão
Racismo estrutural Como o preconceito se reproduz em espaços públicos
Gestão de evento antirracista Estratégias para uma organização mais inclusiva
Preconceito e discriminação Reconhecer e interromper práticas discriminatórias
Direitos humanos e igualdade Base para o atendimento ao público da festa

Antirracismo como gestão do evento

O título da atividade une dois termos que nem sempre aparecem juntos: letramento racial e gestão de evento. A proposta trata o combate ao racismo não como um discurso à parte, mas como parte da operação da festa, algo que se traduz em como a equipe recebe o público, organiza os espaços e responde a situações de discriminação. Ao enquadrar o antirracismo como uma questão de gestão, a oficina o coloca no mesmo nível de outras rotinas do evento, como segurança, logística e limpeza, e não como um tema acessório. É uma forma de dizer que uma festa bem organizada também é uma festa que não tolera o preconceito, e que isso se planeja como qualquer outra parte da operação, com a promoção da igualdade racial incorporada ao próprio roteiro de trabalho.

Palco com o banner da Arte Produções e um telão exibindo o título da oficina sobre gestão de evento antirracista.
Telão anuncia a oficina no palco montado pela produção da festa, no Parque do Povo. Prefeitura de Campina Grande

A atividade foi promovida pela Arte Produções, produtora responsável pela festa, em parceria com a Petrobras, patrocinadora oficial do evento. Que a formação parta da própria produtora, e não apenas do poder público, indica uma tentativa de incorporar o tema à cadeia de quem organiza o São João, e não de tratá-lo como uma ação isolada de imagem. Segundo a Prefeitura, a Arte Produções já vinha trabalhando o assunto internamente desde 2024, quando começou a estruturar a pauta racial dentro da empresa, o que situa a oficina de junho como um passo dentro de um processo mais longo, e não como uma ação pontual de responsabilidade social criada apenas para a temporada.

Reconhecimento do Ministério do Turismo

Três dias depois da oficina, em 18 de junho de 2026, o Ministério do Turismo elogiou publicamente a iniciativa, apontando-a como exemplo nacional de combate ao racismo no turismo de eventos, segundo nova publicação da Prefeitura de Campina Grande. O ministro Gustavo Feliciano associou o gesto às características do próprio São João campinense: “O São João de Campina Grande tem essa característica social, e o combate ao racismo é fundamental”. A pasta federal também exibiu dados do afroturismo brasileiro para justificar a relevância do tema, e Pedro Aryell reforçou o compromisso da produtora com a melhoria contínua: “queremos sempre trazer melhorias e ampliar a qualidade da experiência vivida”.

O letramento racial em números nacionais
41% negócios de afroturismo criados no Brasil nos últimos três anos, segundo o Ministério do Turismo
82% preferência declarada de pessoas negras por serviços turísticos geridos por empreendedores negros
18 e 17 equipe de marketing do São João profissionais pretos ou pardos e brancos, respectivamente, segundo a Arte Produções
2024 início da pauta racial ano em que a Arte Produções passou a trabalhar o tema internamente

Fonte: 13º Boletim de Inteligência do Ministério do Turismo; Prefeitura de Campina Grande, 18 jun. 2026

Os dados do 13º Boletim de Inteligência do Ministério do Turismo, citados pela pasta federal ao comentar a oficina, mostram um mercado em expansão: 66,4% dos empreendimentos de afroturismo no país são liderados por mulheres negras, 91% das pessoas negras afirmam que participariam de experiências ligadas à cultura afro-brasileira, e as buscas por experiências afrocentradas cresceram 30% entre 2024 e 2025. É nesse cenário nacional que o Ministério situou a formação feita em Campina Grande, ao lado da composição da própria equipe de marketing do São João, hoje com 18 profissionais pretos ou pardos e 17 brancos. A produção também informou que mensagens de combate ao racismo e de incentivo ao respeito à diversidade passaram a integrar os painéis de LED e o vídeo de segurança exibido diariamente no Parque do Povo durante a festa.

Parte de um movimento maior na cidade

A oficina não aconteceu no vazio. Poucos dias depois, a Prefeitura de Campina Grande assinou a adesão ao Plano Juventude Negra Viva, política federal de enfrentamento ao racismo, num encontro do qual Carla Borba também participou. São iniciativas de atores distintos, a produtora da festa, o poder público municipal e agora o próprio Ministério do Turismo, mas que convergem para o mesmo tema no mesmo mês, e dialogam com a agenda cultural mais ampla da cidade, como mostra o roteiro cultural para além do São João.

Junho de 2026: a pauta racial em três frentes
  1. 15/06

    Oficina no Parque do Povo

    A produção do São João capacita a equipe em letramento racial e gestão de evento antirracista.

  2. 18/06

    Elogio do Ministério do Turismo

    A pasta federal cita a oficina como exemplo de combate ao racismo no turismo de eventos, ao lado de dados nacionais de afroturismo.

  3. 19/06

    Adesão ao plano federal

    A Prefeitura assina a adesão ao Plano Juventude Negra Viva, do Ministério da Igualdade Racial.

Colocar o tema em três frentes na mesma semana ajuda a fixar a pauta na rotina da cidade, em vez de reduzi-la a uma data pontual. Para o São João, cuja marca é a de festa popular que reúne públicos diversos, o gesto tem um valor simbólico: reconhecer que a diversidade que enche o Parque do Povo também precisa ser respeitada por quem organiza a festa. Num evento que se apresenta como o maior do mundo em seu gênero, e que projeta a imagem de Campina Grande para fora, a forma como a festa trata o público tem alcance que ultrapassa os dias de programação, e agora também repercute na avaliação do governo federal sobre o setor de turismo. Cuidar disso na preparação é assumir que a hospitalidade da cidade também se mede pelo respeito a quem chega.

O que ainda não foi divulgado

O material oficial informa o tema, a ministrante, o público-alvo e a duração aproximada da oficina, mas não detalhou quantos profissionais ao todo participaram da atividade, se a formação será estendida a outros grupos que atuam na festa nem se haverá novas edições nas próximas temporadas. Também não foi divulgado se as estratégias discutidas serão transformadas em um protocolo formal de atendimento antirracista para o evento, nem a composição racial das demais equipes do São João além da de marketing. São informações que ajudariam a medir o efeito prático da iniciativa. O CG em Foco buscará esses dados junto à produção do evento e à Secretaria de Cultura.

VerificadoInformação apurada no site oficial da Prefeitura de Campina Grande.

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