Campina Grande conviveu com um surto prolongado de arboviroses no primeiro semestre de 2026. A cidade registrou 1.663 casos notificados de dengue e 1.191 de chikungunya nas 30 primeiras semanas epidemiológicas do ano, e passou a maior parte desse período no nível mais alto de alerta, segundo o InfoDengue, sistema de monitoramento da Fiocruz.
O InfoDengue classifica a situação de cada município em quatro níveis semanais: verde (transmissão baixa), amarelo (atenção), laranja (transmissão em alta) e vermelho (incidência alta com transmissão sustentada). A leitura combina o número de casos, a incidência por cem mil habitantes e a velocidade de contágio, e é atualizada a cada semana epidemiológica.
Os dados vêm da API pública que a plataforma mantém para todos os municípios brasileiros, com base nas notificações que os serviços de saúde inserem nos sistemas oficiais. É um retrato semana a semana da circulação das arboviroses, que permite acompanhar a curva sem esperar o balanço fechado do ano. A semana epidemiológica, unidade padrão usada pela vigilância em saúde, divide o ano em blocos de sete dias e torna possível comparar o mesmo período entre anos diferentes. É por esse recorte que se enxerga quando a transmissão acelera e quando arrefece. Um detalhe do próprio método pesa nessa leitura: o InfoDengue pratica o que a vigilância chama de nowcasting, ou seja, revisa retroativamente as semanas mais recentes à medida que novas notificações chegam com atraso aos sistemas de saúde. É por isso que o total apurado agora, com a série mais completa, é mais alto do que a primeira leitura publicada em julho.
Fonte: InfoDengue / Fiocruz, semanas 1 a 30 de 2026 (série revisada)
Um ano em alerta vermelho
O dado mais expressivo do período não é um número absoluto, mas a persistência do risco. A dengue esteve no nível vermelho em 23 das 30 primeiras semanas de 2026, o equivalente a mais de três quartos do período. O nível vermelho é o teto da escala do InfoDengue e sinaliza que a doença circulava com intensidade na cidade, e não em focos isolados.
A entrada no nível vermelho aconteceu cedo, por volta da 8ª semana epidemiológica, em 22 de fevereiro, e a partir dali o município praticamente não saiu dessa faixa até o fim das 30 semanas analisadas. Esse tipo de permanência costuma pressionar a rede de atendimento, porque distribui os casos por muitas semanas seguidas, em vez de concentrá-los em um pico curto. Cada semana em vermelho representa unidades de saúde recebendo pacientes com febre, dores no corpo e outros sintomas das arboviroses, além de exames e afastamentos do trabalho e da escola. Para uma cidade de cerca de 443,9 mil habitantes, estimativa do IBGE para 2025, o volume acumulado de notificações exige vigilância constante sobre os focos do mosquito, que se reproduz em pequenas quantidades de água limpa e parada.
Dengue e chikungunya lado a lado
A dengue não circulou sozinha. A chikungunya, transmitida pelo mesmo Aedes aegypti, seguiu uma trajetória mais irregular, alternando semanas de nível vermelho com semanas de queda para os níveis intermediários, mas somou um volume de casos próximo ao da dengue, o que sobrecarrega o mesmo sistema de saúde e a mesma estrutura de combate ao vetor. As duas doenças compartilham sintomas iniciais, como febre e dores no corpo, e exigem o mesmo esforço de eliminação de criadouros. A chikungunya, porém, é conhecida por dores articulares que podem persistir por semanas ou meses, o que prolonga o impacto sobre quem adoece. Enfrentar as duas ao mesmo tempo significa que cada foco eliminado no quintal atua contra mais de uma doença de uma só vez.
| Arbovirose | Casos notificados | Semanas em vermelho | Pico semanal |
|---|---|---|---|
| Dengue | 23 | 82 | |
| Chikungunya | 15 | 63 |
Fonte: InfoDengue / Fiocruz, semanas 1 a 30 de 2026
O combate depende menos do hospital e mais do quintal. Eliminar água parada em caixas, pneus, calhas e vasos é o que interrompe o ciclo do mosquito, e é por isso que o trabalho dos agentes de endemias, que percorrem as casas em busca de focos, aparece no centro das campanhas. A prevenção é a linha de frente porque não existe, para a maioria dos casos, tratamento específico além do cuidado com os sintomas.

A curva do surto
Vista no tempo, a epidemia demorou a mostrar sinal de recuo. Depois de entrar em alerta vermelho ainda em fevereiro, a dengue não teve uma trajetória de queda constante: os casos oscilaram semana a semana, dentro sempre do nível vermelho, até atingir o ponto mais alto já no início de julho, quase no fim do período analisado. Só na última semana da série, a 30ª, o número de notificações caiu para o menor patamar da sequência recente, ainda sem tirar o município do alerta máximo. O desenho da curva ajuda o poder público a planejar os mutirões e as campanhas para os meses de maior risco, e dialoga com outras frentes da rede, como as reunidas no Plano Municipal de Saúde e as ações de prevenção e vacinação que acompanham o calendário do município.
- 22 fev
Alerta vermelho
A dengue entra no nível máximo na 8ª semana epidemiológica e não sai dele até o fim do período analisado.
- 5 a 11 jul
Pico do surto
A 27ª semana registra o ponto mais alto da série, com 82 casos notificados em sete dias.
- 26 jul
Menor patamar, ainda em vermelho
Na 30ª semana, os casos caem para 34, o menor número da sequência, mas o nível de alerta segue vermelho.
Essa oscilação prolongada, sem uma queda que se confirme por várias semanas seguidas, é o retrato de um surto ainda em curso ao final das 30 semanas cobertas por este levantamento. As arboviroses acompanham o regime de chuvas e o calor, e a experiência recente mostra que os surtos tendem a se repetir a cada ano, o que faz do monitoramento contínuo, como o do InfoDengue, uma ferramenta de antecipação e não apenas de registro do que já passou. Por depender de notificações que chegam aos sistemas de saúde com atraso, a própria série é revisada semana após semana, e é justamente por isso que este levantamento corrige, com a série mais completa disponível, os números publicados anteriormente com base em dados então parciais.
O que o dado não mostra
A API do InfoDengue traz casos notificados e níveis de alerta, mas não detalha aqui a distribuição por bairro, a faixa etária mais atingida nem o número de internações ou de óbitos ligados às arboviroses na cidade. Também não substitui o boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde, que consolida os dados locais. São informações que ajudariam a dirigir o combate aos pontos de maior risco e a entender quem mais adoece na cidade. O CG em Foco buscará esses recortes junto à Vigilância em Saúde do município, que mantém boletins epidemiológicos próprios.
VerificadoExtraído da API pública do InfoDengue (Fiocruz), semanas 1 a 30 de 2026.
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