O mapa político da América Latina mudou de cor em menos de dois anos, com a ascensão da direita em boa parte dos países da América Latina. Em 2022, quando Lula foi eleito para o terceiro mandato, a maior parte da América do Sul era governada pela esquerda, no que ficou conhecido como onda rosa. Desde 2025, uma sequência de eleições levou ao poder presidentes de direita ou centro-direita no Chile, na Colômbia, no Peru, na Bolívia, no Equador, em Honduras e na Costa Rica. O segundo turno das eleições no Brasil, neste domingo (25), entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lula (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, decide se o Brasil acompanha a tendência ou segue como o principal governo de esquerda da região.
Fonte: Andina, NPR, DW, AS/COA, Axios, Al Jazeera e Havana Times, 2025-2026
As vitórias foram, em vários casos, apertadas. No Peru, Keiko Fujimori venceu o segundo turno de junho de 2026 com 50,1% dos votos válidos, segundo a agência oficial Andina. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, descrito pela DW como candidato da direita dura, venceu com 49,66% contra 48,70% de Iván Cepeda, aliado do ex-presidente Gustavo Petro. No Chile, a vantagem foi larga: José Antonio Kast, do Partido Republicano, descrito pela NPR como de extrema direita, teve 58,17% em dezembro de 2025. No Equador, Daniel Noboa foi reeleito em abril de 2025 com 55,7%, segundo o centro de estudos AS/COA. Em Honduras, Nasry Asfura, apoiado publicamente por Trump, venceu com 40,26% numa eleição de turno único e apuração longa, em que o partido de esquerda que estava no poder ficou em terceiro lugar, segundo a Axios.
Os números da Costa Rica e da Bolívia no gráfico são de apurações preliminares. O caso boliviano tem uma particularidade: Rodrigo Paz encerrou cerca de 20 anos de governos do MAS, partido de Evo Morales, mas é descrito por parte da imprensa internacional como centrista, e não como de direita. A classificação ideológica de cada governo varia conforme a fonte, e isso vale para toda comparação deste tipo.

Quem governa a região hoje
A esquerda na América Latina perdeu espaço, e na América do Sul os governos de esquerda ficaram restritos a poucos países. Além do Brasil, o Uruguai é governado por Yamandú Orsi, da Frente Ampla, e a Venezuela vive uma situação excepcional: depois que os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, a chavista Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina e segue no cargo. Fora da América do Sul, o principal governo de esquerda é o do México, de Claudia Sheinbaum.
| País | Governante | Campo político |
|---|---|---|
| Argentina | Javier Milei | Direita |
| Chile | José Antonio Kast | Direita |
| Colômbia | Abelardo de la Espriella | Direita |
| Peru | Keiko Fujimori | Direita |
| Equador | Daniel Noboa | Centro-direita |
| Bolívia | Rodrigo Paz | Centro ou centro-direita |
| Paraguai | Santiago Peña | Direita |
| Brasil | Lula | Esquerda |
| Uruguai | Yamandú Orsi | Esquerda |
| Venezuela | Delcy Rodríguez (interina) | Esquerda (chavismo) |
| México | Claudia Sheinbaum | Esquerda |
Fonte: Reuters, NPR, DW, Andina, Axios, Al Jazeera e AS/COA, 2025-2026
Segundo a Reuters, diplomatas brasileiros relatam que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vê o Brasil como o último grande obstáculo a uma região alinhada ao governo de Donald Trump. Do outro lado, opositores de Javier Milei na Argentina veem uma eventual vitória de Lula como impulso para a eleição argentina de 2027. A disputa de domingo, portanto, é acompanhada de perto pelos vizinhos, que dependem do Brasil como maior economia e maior mercado consumidor da região, além de principal parceiro em acordos de comércio, energia e infraestrutura. O próprio acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em janeiro de 2026 em Assunção, depende da ratificação dos países do bloco.
Se Flávio vencer: alinhamento com Washington
O plano de governo que Flávio registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) propõe reaproximar o Brasil de Estados Unidos, Argentina e Israel, retomar o processo de adesão à OCDE e guiar a política externa pelo interesse econômico, e não por afinidades ideológicas, segundo o Congresso em Foco. Segundo o Council on Foreign Relations, Flávio disse que vai reavaliar a participação no Brics, bloco do qual o Brasil é fundador, e promete uma relação pragmática com a China, maior parceiro comercial do país.

Para o Council on Foreign Relations, uma vitória de Flávio colocaria o Brasil na guinada à direita da região e poderia levar o país a aderir a iniciativas de segurança propostas pelos Estados Unidos, com linha mais dura em relação a Venezuela e Cuba. Na prática, o Brasil passaria a formar com Argentina, Chile, Colômbia e Peru um bloco conservador que reúne as maiores economias sul-americanas. Nesse cenário, a direita na América Latina estaria à frente dos governos das cinco maiores economias sul-americanas, quadro oposto ao de 2022, quando a esquerda governava a maior parte da região e ocupava outro lado do espectro político.
Se Lula vencer: o contrapeso regional
Lula defende uma diplomacia multilateral, com prioridade para Mercosul, Brics e países do Sul Global, e a reforma de organismos como a ONU e o FMI. Segundo a Reuters, ele fortaleceu laços com a China, ampliou a relação com a Europa e resistiu às tarifas impostas por Trump. Em discurso na ONU, disse que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. O Brasil sediou a Cúpula do Brics em 2025, no Rio de Janeiro, e a COP30, em Belém, no mesmo ano, apostas da atual gestão para ampliar o peso do país em fóruns internacionais. A campanha petista acusa os Estados Unidos de tentar interferir na eleição, o que o Departamento de Estado americano nega, segundo a rádio pública NPR.
Fonte: Contagem CG em Foco a partir de Reuters, NPR, DW, Andina e AS/COA
Num eventual quarto mandato, Lula seria o único presidente de esquerda entre as grandes economias sul-americanas, cercado por governos de direita na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Peru. Segundo o Council on Foreign Relations, ele classificou a operação americana que retirou Maduro do poder como mais um capítulo da erosão do direito internacional. O analista Oliver Stuenkel, citado pelo centro de estudos, avalia que alinhamento profundo com Washington ou com Pequim dificilmente é opção para um país que depende de ambos, qualquer que seja o vencedor em Brasília. Veja também como líderes mundiais se posicionaram e as propostas dos dois candidatos.
VerificadoResultados eleitorais e posições conferidos em agências oficiais e na imprensa internacional.
Publicado em · Política de correções



Comentários