Os dados do Censo 2022 do IBGE, divulgados pela Agência Brasil, colocam um número no que já se sentia na prática: quem tem deficiência ganha menos e trabalha menos. O rendimento médio mensal dos trabalhadores com deficiência é de R$ 2.053, o equivalente a 70% dos R$ 2.890 recebidos, em média, por quem não tem deficiência. A diferença não é um detalhe estatístico, porque ela se repete no acesso ao emprego e resiste até nos setores que pagam melhor.
Fonte: IBGE, Censo 2022, via Agência Brasil (18/9/2026)
O contraste no nível de ocupação é o mais duro. Entre as pessoas com deficiência, apenas 29% estavam ocupadas, quase metade dos 55,8% registrados entre as pessoas sem deficiência. Em números absolutos, das 13,71 milhões de pessoas com deficiência em idade de trabalhar, só 3,97 milhões tinham ocupação. É uma fatia enorme de gente fora do mercado formal de trabalho, um contingente que o Censo agora dimensiona com precisão e que ajuda a explicar por que a renda média fica tão abaixo da registrada no resto da população.
O acesso ao trabalho varia com o tipo de deficiência
O Censo mostra que não há um bloco único, porque o acesso ao emprego muda bastante conforme o tipo de deficiência. O maior nível de ocupação aparece entre pessoas com dificuldade de enxergar, e o menor entre as pessoas com deficiência mental ou intelectual, uma distância que revela quanto as barreiras de acessibilidade e de preconceito pesam de forma desigual sobre cada grupo.
A leitura do gráfico é direta: quanto maior a barreira à autonomia no dia a dia, menor o acesso ao trabalho. Pessoas com dificuldade de enxergar chegam a 35,9% de ocupação, enquanto entre as com deficiência mental ou intelectual o índice cai para 12,9%, menos de um em cada oito. Quem acumula mais de um tipo de deficiência fica em 15,6%, também abaixo da média do grupo. O padrão sugere que políticas de inclusão precisam ser desenhadas por tipo de deficiência, e não como uma receita única para todos.
A diferença resiste onde o salário é maior
Seria natural supor que a distância de renda desaparece nos setores mais bem pagos, mas não é o que os dados do IBGE mostram. Mesmo na administração pública, na educação e na saúde, que são segmentos de remuneração média mais alta e com regras de cotas para pessoas com deficiência, a diferença de rendimento persiste e continua visível.
| Recorte | Com deficiência | Sem deficiência | Proporção |
|---|---|---|---|
| Rendimento geral | R$ 2.053 | R$ 2.890 | 70% |
| Adm. pública, educação e saúde | R$ 3.223 | R$ 4.146 | 78% |
Fonte: IBGE, Censo 2022, via Agência Brasil (18/9/2026)
No conjunto desses setores, o trabalhador com deficiência recebe em média R$ 3.223, contra R$ 4.146 de quem não tem deficiência. A proporção sobe para 78%, um pouco melhor do que a média geral, mas ainda longe da igualdade. O recado é que nem os espaços com política de inclusão e piso salarial mais alto conseguem zerar a diferença de renda, o que indica que o problema não se resolve só com a porta de entrada no emprego, mas também com a progressão de carreira e o cargo que a pessoa alcança dentro de cada organização.
A renda da casa também muda
O efeito não fica só no contracheque individual, porque ele molda a economia do domicílio inteiro. Nos lares com pelo menos uma pessoa com deficiência, 55,7% da renda vêm do trabalho. Nos domicílios sem pessoas com deficiência, essa parcela sobe para 78,4%, uma diferença que mostra o quanto essas famílias dependem de outras fontes para fechar o mês.

A parte que falta na renda desses domicílios é preenchida por aposentadorias, pensões e benefícios, como o BPC, o Benefício de Prestação Continuada. Isso não é, por si só, um problema, porque são políticas que existem justamente para garantir renda a quem tem menos acesso ao trabalho. Mas o dado revela uma dependência maior de transferências e uma exposição também maior a qualquer mudança nas regras desses benefícios. Quando o desenho da Previdência ou dos benefícios assistenciais muda, é essa fatia da população que sente primeiro, e costuma ser também a que tem menos margem para absorver o impacto.
Vale o cuidado de sempre com o que a estatística diz e o que ela não diz. Os números do Censo 2022 retratam a foto de um ano-base e não medem, isoladamente, o efeito de programas recentes de inclusão nem projetam tendência para os próximos anos. O que está confirmado é o tamanho da distância: em renda, em ocupação e na composição da renda familiar, a população com deficiência aparece sistematicamente atrás, e é essa lacuna que as políticas públicas têm pela frente.
Por que isso importa para Campina Grande
O quadro é nacional, mas o desafio é local. Em Campina Grande e na Paraíba, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho passa pelos mesmos gargalos apontados pelo IBGE: acessibilidade, transporte, qualificação e cumprimento da Lei de Cotas. Os dados servem de régua para cobrar políticas municipais e estaduais que ataquem a diferença na ponta, e não apenas no discurso.
Para quem acompanha os benefícios ligados a esse público, o CG em Foco mantém o calendário de pagamentos do INSS e as mudanças na aposentadoria especial julgada pelo STF. O tema da inclusão também esteve na pauta local, no debate da Câmara sobre atendimento a crianças atípicas. O CG em Foco vai acompanhar como esses números se traduzem em política pública na cidade.
Fonte oficialIBGE, Censo Demográfico 2022, divulgado pela Agência Brasil em 18 de setembro de 2026.
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