Em Brasília, em Bruxelas ou em Buenos Aires, a pergunta sobre qual campo tem mais força hoje, a esquerda ou a direita, não tem resposta num único número. Não existe um indicador oficial e atualizado que classifique todos os governos do mundo por ideologia. Mas três recortes com dados verificáveis apontam na mesma direção: a composição do Parlamento Europeu, a contagem dos governos sul-americanos e o primeiro turno da eleição brasileira de 2026. Nos três, a direita está à frente. Há, porém, exceções importantes, e o eleitor brasileiro dá a palavra final neste domingo (25), no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
- Centro-direita e direita 375 cadeiras
- Esquerda e centro-esquerda 235 cadeiras
- Liberais (Renew) 77 cadeiras
- Não inscritos 33 cadeiras
Europa: a direita soma maioria no Parlamento
No Parlamento Europeu, eleito em 2024 para o mandato até 2029, o maior grupo é o Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, com 188 das 720 cadeiras, segundo os resultados oficiais. Somado aos grupos à sua direita, os Patriotas pela Europa (84), os Conservadores e Reformistas (78) e a Europa das Nações Soberanas (25), o campo chega a 375 das 720 cadeiras, cerca de 52% do total.
Os grupos de centro-esquerda e esquerda, como os social-democratas, somam 235 cadeiras: os socialistas e democratas (136), os verdes (53) e A Esquerda (46). Os liberais do Renew, com 77 cadeiras, formam o fiel da balança. Eles costumam se aliar ao PPE e aos socialistas para formar maiorias. Esse arranjo de centro ainda é o que comanda a Comissão Europeia, o que mostra que maioria numérica da direita não significa, automaticamente, governo de direita. Para a conta do gráfico, a redação agrupou como direita os grupos PPE, Patriotas, Conservadores e Nações Soberanas e, como esquerda, os socialistas, os verdes e A Esquerda. Liberais e não inscritos ficaram à parte, por não se encaixarem em nenhum dos dois blocos de forma clara.
Fonte: Parlamento Europeu, resultados oficiais, julho de 2024
Fora da União Europeia, eleições recentes também favoreceram a direita em grandes economias. Nos Estados Unidos, o republicano Donald Trump voltou à Presidência em 2025. No Japão, o Partido Liberal Democrata, de Sanae Takaichi, venceu a eleição antecipada de fevereiro de 2026 e ampliou sua maioria na câmara baixa, segundo a Al Jazeera e o instituto International IDEA. O avanço conservador aparece em países com sistemas políticos e modelos econômicos muito diferentes, num movimento que a imprensa internacional costuma chamar de onda conservadora.
As exceções: onde a esquerda e o centro venceram
A tendência não é uniforme, e o cenário político entre direita e esquerda depende do país. No México, Claudia Sheinbaum, do Morena, foi eleita em 2024 com ampla vantagem, e no Uruguai a Frente Ampla voltou ao poder com Yamandú Orsi no mesmo ano. Na Holanda, o partido centrista D66 venceu a eleição de outubro de 2025, com recuo da extrema direita, segundo a Al Jazeera. Em Portugal, o socialista António José Seguro derrotou André Ventura, do Chega, na eleição presidencial de fevereiro de 2026, segundo o jornal South China Morning Post.

América do Sul: a onda rosa virou
Em 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro, a onda rosa estava no auge: a esquerda governava a maior parte dos países sul-americanos, entre eles Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Bolívia, como registrou a revista Foreign Policy na época. Quatro anos depois, o quadro se inverteu. Entre os países latino-americanos, o avanço da direita é nítido. Pela contagem dos governos em exercício em outubro de 2026, sete países são governados pela direita ou pela centro-direita: Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Equador, Paraguai e Bolívia.
Restam três governos de esquerda na América do Sul, e a esquerda na América Latina tem hoje menos presidentes do que a direita: o Brasil de Lula, o Uruguai de Orsi e a Venezuela, governada interinamente pela chavista Delcy Rodríguez desde a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026. O Brasil tem hoje o maior governo de esquerda da região. Segundo a Reuters, Lula chega ao segundo turno carregando as esperanças de uma esquerda latino-americana em retração.
Fonte: TSE (votos) e NPR (classificação dos candidatos), outubro de 2026
Brasil: um país dividido ao meio
No primeiro turno de 4 de outubro, Lula teve 45,16% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 47,03%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os candidatos que ficaram do terceiro ao quinto lugar, descritos pela NPR como de direita, somaram cerca de 7,6%. Pela soma simples, os candidatos de direita reuniram mais da metade dos votos válidos, e a NPR registrou ganhos expressivos do campo no Congresso, sobretudo no Senado.

A soma, no entanto, não define o segundo turno. Eleitores de candidatos derrotados não seguem automaticamente a orientação de seus líderes, e a abstenção de 21,08% no primeiro turno, cerca de 33,4 milhões de pessoas, é maior do que a diferença entre os dois finalistas. As pesquisas da última semana, do Datafolha e da AtlasIntel, mostram empate técnico entre os dois candidatos dentro da margem de erro. Veja também como a guinada à direita muda a América Latina, o resultado do primeiro turno por estado e o que dizem as pesquisas finais.
Qualquer que seja o resultado, o próximo presidente vai governar com o Congresso Nacional eleito em 4 de outubro, que toma posse em fevereiro de 2027, em Brasília. É ali que se decidem as reformas e as mudanças constitucionais prometidas pelos dois candidatos, que exigem três quintos dos votos na Câmara e no Senado. Por isso, a correlação de forças entre esquerda e direita no Parlamento pesa tanto quanto o nome do vencedor. Um presidente de esquerda com Congresso de maioria conservadora, ou o contrário, precisa negociar cada votação importante, como ocorreu nos últimos anos.
Fonte oficialCadeiras do Parlamento Europeu e votos do TSE; contagem regional feita pela redação.
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