O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, recebeu uma peça de uso pessoal de Mãe Bernadete, ialorixá e líder da comunidade quilombola Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador (BA). Segundo a Agência Brasil, trata-se de um vestido branco com detalhes azuis, doado pelo filho dela, o professor Jurandy Pacífico dos Santos, durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, realizada nesta semana no bairro de São Cristóvão.
De acordo com a Agência Brasil, o museu consultou Jurandy sobre a possibilidade da doação. Ele aceitou e escolheu a peça, que, segundo o relato, considera mais do que uma roupa: parte da identidade, da espiritualidade e da memória da família e da comunidade. Gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares, ele assinou o termo de doação durante a cerimônia. Em texto citado pela agência, Jurandy escreveu que a memória de Mãe Bernadete permanece viva porque o legado dela continua. Ele também lembrou o histórico de falta de reconhecimento do povo quilombola pelo sistema, segundo a reportagem.

“A doação da indumentária não é apenas a doação de um objeto”, disse Jurandy, segundo a Agência Brasil. Ele afirmou que a peça representa a ancestralidade e a dedicação da mãe, a quem atribui 72 anos de defesa dos direitos humanos, dos quilombos e do território. “Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história”, declarou. Mãe Bernadete morreu em agosto de 2023, informou a agência.
O que é o Diálogos da Reconstrução
O Diálogos da Reconstrução chegou à 3ª edição com o tema Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional. Segundo a Agência Brasil, a proposta foi reunir lideranças quilombolas de diferentes regiões para discutir a preservação da memória, a produção cultural e a transmissão de conhecimentos. O evento foi realizado com o Projeto Museu Nacional Vive, a Unesco, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Instituto Cultural Vale, e teve transmissão ao vivo pelo canal do museu no YouTube.
Participaram da cerimônia, conforme as legendas da Agência Brasil, a vice-diretora do Museu Nacional/UFRJ, Juliana Sayão, a diretora do Instituto Cultural Vale, Luciana Gondim, e a presidente da Associação de Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes. A programação incluiu um debate sobre mulheres na luta pela terra, com Selma dos Santos Dealdina Mbaye, coordenadora do Coletivo de Mulheres da Conaq.
Para a diretora de Integração Museu e Sociedade, Thais Mayumi Pinheiro, a iniciativa busca “reforçar o compromisso da instituição com a construção de um museu plural e democrático”, segundo a Agência Brasil. O gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, Caio Gonçalves Dias, afirmou que o papel do museu é “criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos, respeitados e apresentados”. A instituição diz que o objetivo é preservar as práticas quilombolas como patrimônios vivos.
- 1818
Criação
D. João VI cria o museu, que funciona no Campo de Santana.
- 1892
Paço de São Cristóvão
O museu passa a ocupar o palácio na Quinta da Boa Vista.
- 2 de setembro de 2018
Incêndio
O fogo atinge o palácio e a maior parte do acervo.
- Agosto de 2024
Espaço provisório
O museu inaugura local para receber alunos de escolas.
- Abril de 2025
Novo aporte
O BNDES anuncia mais R$ 50 milhões para a obra.
- Outubro de 2026
Doação
O museu recebe a indumentária de Mãe Bernadete.
A reconstrução do acervo
A doação ocorre no processo de recomposição do acervo do museu, atingido por um incêndio na noite de 2 de setembro de 2018. Segundo reportagem da Agência Brasil de abril de 2025, a instituição perdeu cerca de 85% do acervo, que reunia mais de 20 milhões de itens. Em setembro de 2024, a agência informou que o museu precisava de cerca de 10 mil peças doadas para as novas exposições e já tinha obtido 1.815. A mesma reportagem informou que as obras emergenciais foram de setembro de 2018 a agosto de 2019 e que os trabalhos de fachada e telhado começaram em novembro de 2021.
O financiamento da obra também foi detalhado pela Agência Brasil em abril de 2025, quando o BNDES anunciou mais R$ 50 milhões não reembolsáveis. Na ocasião, o orçamento da restauração era de R$ 516 milhões, dos quais R$ 347 milhões já tinham sido captados. Os recursos foram destinados ao restauro do Paço de São Cristóvão, à readequação do prédio da Biblioteca Central e a ações de divulgação do museu.
Segundo a mesma reportagem, o BNDES somou R$ 100 milhões ao projeto com três operações: R$ 21,7 milhões em 2018, R$ 28,3 milhões em 2020 e R$ 50 milhões em 2025. A previsão divulgada era de entrega parcial em 2026 e conclusão total da obra em 2028. O diretor-presidente do Instituto Cultural Vale, Hugo Barreto, que representa o comitê executivo do Projeto Museu Nacional Vive, afirmou na época que o aporte garantia a continuidade das obras sem risco de atraso. O banco informou que buscava parceiros para criar um fundo patrimonial de longo prazo para o museu, independente do orçamento da União.
Uma instituição de 1818
O Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio, abriga o museu desde 1892, segundo a Agência Brasil. A instituição foi criada em 1818 por D. João VI e funcionava no Campo de Santana. O palácio foi residência da família imperial de 1808 a 1889 e sediou a Assembleia Constituinte de 1891. O museu integra o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Em agosto de 2024, a Agência Brasil registrou a inauguração de um espaço provisório para receber alunos de escolas, depois de seis anos sem local permanente de visitação. O espaço abriu com a exposição Um Museu de Descobertas, segundo a agência. Outras notícias de memória e patrimônio estão em cultura e, no noticiário nacional, em Brasil. A doação da indumentária de Mãe Bernadete passa a integrar o acervo que o museu reúne para as novas exposições, segundo a agência.
Fonte oficialInformações do Museu Nacional/UFRJ, via Agência Brasil.
Publicado em · Política de correções
Comentários