O Banco Central cortou os juros pela quinta vez seguida. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária, o Copom, reduziu a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, numa decisão já esperada pelo mercado financeiro. A Selic é o juro básico da economia, a referência a partir da qual se formam as demais taxas cobradas de quem toma crédito e pagas a quem poupa, e por isso cada reunião do comitê, realizada em Brasília, é acompanhada de perto por bancos, empresas e famílias.
Fonte: Banco Central, Copom, 16 de setembro de 2026
A quinta queda seguida
O corte confirma um movimento que vinha sendo desenhado ao longo do ano. Entre junho de 2025 e março deste ano, a Selic ficou travada em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, um nível de juro real alto o suficiente para esfriar a demanda e forçar a inflação para baixo. Com os preços cedendo, o Copom voltou a cortar em abril e desde então repetiu a dose a cada reunião, sempre em passos curtos, para não perder o controle sobre a trajetória dos preços.
O comitê, porém, decidiu num ambiente que descreve como incerto. No comunicado, o Banco Central aponta que a indefinição sobre os conflitos armados no Oriente Médio e a dúvida sobre a política de juros nas economias avançadas exigem cautela dos países emergentes, num cenário de volatilidade maior nos preços de ativos e de commodities. Some-se a isso o início do fenômeno El Niño, que tende a encarecer alimentos nos próximos meses, e fica claro por que o corte foi comedido em vez de mais agressivo. Um passo maior daria mais fôlego à atividade no curto prazo, mas correria o risco de reacender a inflação justamente quando o cenário externo está mais nervoso, e o comitê preferiu não apostar nessa direção.
- jun. 2025
Pico de 15%
A Selic atinge 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos, para conter a inflação.
- abr. 2026
Retomada dos cortes
Com a inflação em queda, o Copom volta a reduzir os juros básicos.
- set. 2026
Selic a 13,75%
Quinta queda seguida, de 0,25 ponto, decidida por unanimidade.
O tamanho de cada corte não é aleatório. Ao reduzir a Selic devagar, o Copom tenta um equilíbrio delicado: dar fôlego à atividade econômica sem reacender a inflação. Nas contas do próprio Banco Central, expressas no Relatório de Política Monetária, a economia deve crescer 2% em 2026, enquanto o boletim Focus, que reúne as projeções do mercado, aponta expansão um pouco menor, de 1,89%. São números que descrevem uma atividade em desaceleração gradual, ainda que resiliente, exatamente o pano de fundo que dá margem para o juro cair.
| Indicador | Projeção / meta |
|---|---|
| Inflação (IPCA) no fim de 2026 | 4,9% |
| Teto da meta de inflação | 4,5% |
| Centro da meta | 3,0% |
| Crescimento do PIB em 2026 | 1,89% |
Fonte: Banco Central, boletim Focus e meta de inflação, setembro de 2026
Para quem vive de crédito, a direção importa mais que o tamanho do passo. Um financiamento de imóvel, em São Paulo ou em qualquer outra cidade, tende a ficar menos pesado quando a Selic recua, porque o custo do dinheiro para os bancos diminui e parte desse alívio chega às prestações. O repasse, no entanto, não é imediato nem uniforme: cada instituição define suas taxas conforme o risco e a concorrência, de modo que o mesmo corte aparece de formas diferentes no crédito consignado, no cartão e no crédito imobiliário. O juro básico também conversa com outras medidas recentes de alívio ao bolso, como o subsídio à gasolina e ao diesel, que tentam segurar preços por caminhos distintos. Enquanto a política de juros age sobre o custo do dinheiro, os subsídios mexem direto no preço de itens específicos, e o resultado que o consumidor sente na ponta é a soma dessas frentes.

Inflação ainda acima da meta
A razão de o Copom seguir cauteloso está na distância que ainda separa a inflação da meta. Em agosto, o IPCA, índice oficial de preços, ficou negativo em 0,32%, o menor nível em quatro anos, ajudado pelo bônus de Itaipu nas contas de luz e por uma queda de 0,34% nos alimentos. No acumulado de 12 meses, o índice recuou para 4,22%, ante 4,44% em julho, um alívio importante, mas que ainda deixa os preços rodando acima da meta.
Pelo sistema de meta contínua, em vigor desde 2025, o alvo perseguido pelo Banco Central é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo, o que fixa o teto em 4,5% e o piso em 1,5%. A verificação passou a ser feita mês a mês, sempre olhando a inflação acumulada em 12 meses, e não mais apenas o índice fechado de dezembro. Nesse desenho, o 4,22% de agosto já cabe dentro do intervalo de tolerância, mas o mercado projeta 4,9% para o fim do ano, o que manteria a inflação além do limite superior.
Há ainda um detalhe institucional que ronda as decisões: o Copom está desfalcado desde o fim de 2025, quando terminaram os mandatos de dois diretores, e os substitutos ainda não foram indicados ao Congresso. Mesmo assim, o comitê seguiu decidindo por unanimidade, sinal de que a leitura sobre a inflação e o ritmo dos cortes é compartilhada entre os presentes. Para o consumidor, o recado prático é o de sempre: a Selic menor abre espaço para crédito mais barato, mas o efeito chega aos poucos, e vale acompanhar as próximas reuniões antes de assumir uma dívida longa. O ritmo dos cortes daqui para frente vai depender de como a economia reage, e os primeiros sinais aparecem em indicadores como a prévia do PIB medida pelo IBC-Br, que ajuda a antecipar se a atividade acelera ou perde força. Se a inflação seguir cedendo e o crescimento continuar moderado, o Copom tem espaço para novos cortes; se o El Niño encarecer os alimentos com força, o comitê pode desacelerar o ciclo ou até interrompê-lo. Mais análises sobre juros, preços e renda estão na editoria de Economia.
Fonte oficialApurado no comunicado do Copom e nos dados do Banco Central e do IBGE.
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