O governo federal decidiu que precisa endurecer com as bets, mas ainda não decidiu como. Em 1º de setembro, depois de ouvir a sociedade civil no Palácio do Planalto, o presidente Lula disse que era hora de tomar a decisão mais drástica sobre o setor. O pano de fundo é um número que o próprio governo colocou na mesa: as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com apostas esportivas em 2025.
Fonte: Governo federal, via Agência Brasil (1/9/2026)
As contas que preocupam o governo
Os números que o governo federal reuniu para a reunião ajudam a entender a pressa. A perda de R$ 62,5 bilhões em um ano equivale a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026, dinheiro que deixa de circular no consumo, no aluguel e nas contas básicas. É o que o governo chama de comprometimento da renda das famílias, o mesmo argumento usado para justificar medidas contra a inflação.
O caminho desse dinheiro também foi mapeado. No período, R$ 351 bilhões passaram das contas das famílias para as casas de apostas por meio do Pix, o que equivale a 0,68% da renda nacional. A facilidade do pagamento instantâneo, que é uma conquista do sistema financeiro, virou também o trilho que leva o salário para a aposta em segundos, sem a fricção que existia nos meios de pagamento antigos.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Perdas das famílias em 2025 | R$ 62,5 bilhões |
| Média mensal de perdas | R$ 4,7 bilhões |
| Total movimentado via Pix | R$ 351 bilhões |
| Parcela da renda nacional | 0,68% |
| Bets clandestinas identificadas | 60 mil |
Fonte: Governo federal, via Agência Brasil (1/9/2026)
O que trava uma proibição imediata é o próprio tamanho do problema. O governo diz ter identificado 60 mil bets clandestinas, e foi a esse número que Lula se referiu ao reconhecer a dificuldade. Regular não conteve o mercado, proibir esbarra na fiscalização de um universo enorme de sites ilegais, e cada rodada de regras novas convive com um setor que se reorganiza rápido para continuar operando. Boa parte dessas plataformas opera a partir do exterior, com domínios que trocam de endereço para escapar do bloqueio, o que transforma qualquer proibição em uma corrida de fiscalização difícil de vencer no curto prazo.
Uma epidemia de saúde mental
A conta mais dura das apostas não é só financeira. Os atendimentos no SUS por transtorno relacionado ao jogo saltaram de cerca de 600 para 100 mil atendimentos por mês, um salto que o Ministério da Saúde levou à reunião como evidência de um problema de saúde pública, e não de comportamento individual. Entre as pessoas que procuram ajuda, 55% são mulheres, um perfil que contraria a imagem popular do apostador e mostra como o vício se espalhou.
O tratamento do transtorno de jogo é feito principalmente pela rede de saúde mental, os CAPS, os mesmos serviços que já cuidam de dependência química e de outros transtornos. A chegada em massa de pessoas com problemas ligados à aposta pressiona uma estrutura que não foi dimensionada para essa demanda. Foi por isso que a Saúde entrou no debate ao lado da Fazenda e da Casa Civil, tratando o vício em bets como questão de saúde pública, com custo direto para o orçamento do SUS e para as famílias que precisam acompanhar quem adoeceu.

Do decreto à indecisão
A reunião de setembro não foi o começo da ofensiva, e sim mais um capítulo. Ao longo de 2026 o governo já havia apertado o cerco por partes, com decreto para bloquear recursos de sites ilegais e regras novas para a publicidade, sem nunca chegar à medida definitiva que Lula prometeu avaliar. A cronologia mostra um movimento em degraus, em que cada passo foi importante, mas nenhum resolveu o problema sozinho.
- Junho
Bloqueio de recursos
Decreto prevê o bloqueio de recursos de bets ilegais.
- Julho
Freio na publicidade
Novas regras restringem os anúncios e exigem aviso de risco.
- 1º de setembro
Escuta e promessa
Governo ouve a sociedade civil e Lula fala em decisão mais drástica.
- 17 de setembro
Sem decisão
Fazenda afirma que ainda não há decisão tomada.
A pausa ficou explícita duas semanas depois. Em 17 de setembro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não há nenhuma decisão tomada e que, quando houver, será anunciada. Ele repetiu que o debate passa pelo custo de vida e pela preservação da renda das famílias, o mesmo argumento do presidente, mas sem apontar qual será o remédio nem quando ele virá.
Por que isso importa para Campina Grande
A discussão é nacional, mas a fatura chega na ponta. Em Campina Grande e na Paraíba, o dinheiro que sai para as apostas é renda que deixa o comércio local, e o atendimento ao transtorno de jogo recai sobre a rede municipal de saúde mental. É o mesmo circuito que já aparece em outras contas da cidade, do orçamento das famílias aos serviços públicos que absorvem a conta do vício.
Para acompanhar os fios ligados a esse tema, o CG em Foco detalha as novas regras do Pix que valem a partir de 2027, o trilho por onde o dinheiro das apostas circula, e cobre a rede de saúde mental que trata a dependência, como no Arraial da Saúde Mental dos CAPS no Parque do Povo. O CG em Foco vai acompanhar qual medida o governo vai, enfim, escolher, e o que ela vai significar para o bolso e para a saúde das famílias paraibanas.
Fonte oficialDados do governo federal e da Fazenda, via Agência Brasil (setembro de 2026).
Publicado em · Política de correções



Comentários