O melanoma é conhecido como o câncer de pele mais agressivo, mas um boletim da Fundação do Câncer lembra que a doença nem sempre começa na pele. O documento, “Melanoma: nem sempre na pele”, é a 12ª edição da série “Análises e Tendências em Câncer” e foi divulgado em setembro de 2026, com dados da plataforma info.oncollect. Entre 1990 e 2021, o Brasil registrou 42.255 casos de melanoma: 92,2% cutâneos (na pele), 5,7% oculares e 2,5% em mucosas.
O recorte extracutâneo é menor, mas clinicamente relevante. Entre os casos que surgem fora da pele, 75% ocorrem nos olhos, 12,8% em órgãos genitais e 8,2% no sistema digestivo, além da mucosa oral. A mensagem central do estudo é de reconhecimento: saber que o melanoma pode aparecer em localidades diferentes da pele ajuda a ampliar a atenção clínica e a levar o paciente ao diagnóstico mais cedo.
Fonte: Fundação do Câncer, boletim Melanoma: nem sempre na pele, setembro de 2026
O melanoma cutâneo e a distribuição por sexo
A grande maioria dos casos continua sendo do tipo melanoma cutâneo. Entre 1990 e 2021, foram 30.614 novos casos desse tipo no país, com predominância levemente feminina: 51,3% em mulheres e 48,7% em homens. A distribuição por sexo não altera a conduta preventiva, mas informa o perfil epidemiológico da doença na série histórica analisada pela Fundação.
A mortalidade também faz parte do retrato. Em 2023, o Brasil registrou 2.047 mortes por melanoma, sendo 1.176 em homens e 871 em mulheres, o que reforça o caráter grave da doença quando diagnosticada em estágio avançado e sustenta a ênfase do boletim no diagnóstico precoce. A projeção para 2026 aponta 9.360 novos casos, com taxa de incidência de 19,2 por milhão de habitantes (entre homens, a estimativa é de 23,8, e entre mulheres, de 17,3). São números projetados a partir da série histórica, e não contagem fechada do ano corrente.

Distribuição regional e o papel da radiação UV
A incidência do melanoma de pele não é uniforme no território nacional. A Região Sul registra 44,40 casos por milhão, mais que o dobro da média nacional de 19,20. O estudo associa esse padrão à presença mais frequente de pele mais clara na população e à exposição à radiação UV, fator de risco bem estabelecido para o melanoma cutâneo.
A leitura regional não é determinismo. Ela aponta para a combinação de fatores que modulam o risco e reforça a orientação de proteção solar como medida de prevenção do melanoma de pele. Quanto aos casos extracutâneos, a prevenção tem desenho diferente: no melanoma ocular, por exemplo, os exames oftalmológicos de rotina ajudam na detecção, muitas vezes antes do aparecimento de sintomas claros.
Melanoma ocular: silencioso no início
O melanoma ocular concentra três quartos dos casos extracutâneos e pode ser assintomático no começo. Muitas vezes, o tumor é detectado em exames de rotina, sem que o paciente relate queixa. Quando há sintomas, eles podem incluir visão embaçada, flashes de luz, manchas no campo visual e perda de visão.
Esse comportamento clínico é o que dá sentido à frase do coordenador do estudo, Alfredo Scaff, consultor médico da Fundação do Câncer: “Para enfrentar o câncer, não basta tratar. É preciso conhecer”. Conhecer, aqui, significa reconhecer que a doença tem formas variadas e que a detecção em localidades diferentes da pele depende de atenção a sintomas e a exames de rotina.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Casos registrados (1990 a 2021) | 42.255 |
| Mortes (2023) | 2.047 |
| Novos casos projetados (2026) | 9.360 |
| Taxa nacional (por milhão) | 19,2 |
| Taxa na Região Sul (por milhão) | 44,4 |
| Cirurgia entre os tratamentos (2014 a 2023) | 84,7% |
Fonte: Fundação do Câncer, via Agência Brasil, 2026
O boletim não substitui avaliação médica individual. Ele informa o que a literatura e a plataforma info.oncollect mostram sobre a distribuição dos casos no Brasil e no mundo, e orienta o debate público sobre prevenção e diagnóstico precoce da doença.
Tratamento: da cirurgia à imunoterapia
O tratamento principal do melanoma, ao longo da década analisada, é a cirurgia: entre 2014 e 2023, o procedimento cirúrgico respondeu por 84,7% das intervenções registradas na série, e em estágios iniciais a ressecção com margens adequadas segue sendo a base da conduta. Os avanços mais recentes vêm da imunoterapia: em 2016, a Anvisa aprovou os anti-PD-1 nivolumabe e pembrolizumabe; em 2020, a Conitec aprovou a primeira imunoterapia no SUS para o melanoma metastático; e, mais recentemente, chegou o tebentafuspe, voltado ao melanoma ocular metastático. A mudança de eficácia é expressiva: a resposta da quimioterapia era inferior a 10%, e a da imunoterapia chega a 70%.
- 2016
Imunoterápicos anti-PD-1
A Anvisa aprova o nivolumabe e o pembrolizumabe para o tratamento do melanoma.
- 2020
Imunoterapia no SUS
A Conitec aprova a primeira imunoterapia no SUS para o melanoma metastático.
- recente
Terapia para o melanoma ocular
Chega o tebentafuspe, voltado ao melanoma ocular metastático.
A cronologia mostra como o arsenal terapêutico se ampliou em pouco mais de uma década. A metástase, antes com resposta limitada à quimioterapia, passou a contar com opções imunológicas de maior eficácia. A disponibilidade no SUS, a partir de 2020, alterou de forma significativa o acesso a esse tipo de tratamento para parte dos pacientes com doença avançada no país.
O que o estudo deixa em aberto
O boletim da Fundação do Câncer não encerra a discussão sobre o melanoma: ele organiza o que se sabe sobre a distribuição dos casos, a predominância do tipo cutâneo, a presença relevante da forma ocular e os avanços do tratamento, com a projeção de 9.360 casos em 2026 e a taxa nacional de 19,2 por milhão como retrato mais recente. A prevenção do melanoma de pele segue ancorada na proteção contra a radiação UV, enquanto no melanoma ocular os exames oftalmológicos de rotina ganham destaque como caminho de detecção precoce, inclusive em fases assintomáticas. A mensagem, em síntese, é de ampliação de olhar: o melanoma aparece principalmente na pele, mas não só, e conhecer as formas extracutâneas e investir em prevenção e diagnóstico precoce é o que o estudo coloca em discussão. O tema dialoga com outras frentes de saúde pública acompanhadas pelo CG em Foco, da vacinação pelo SUS ao alcance da rede pública para grupos vulneráveis.
Fonte oficialApurado no boletim da Fundação do Câncer, via Agência Brasil.
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