Em síntese. O acervo Art Déco de Campina Grande sobreviveu ao tempo, mas vem perdendo a briga contra a reforma malfeita e o painel comercial. Cidades que enfrentaram o mesmo dilema — Miami à frente delas — transformaram a arquitetura dos anos 1940 em indústria turística permanente. Aqui, o projeto de revitalização segue engavetado, e o turismo continua concentrado em trinta dias de junho.
O Cine Babilônia foi inaugurado em 1939. A fotografia da época mostra o que era: marquise em balanço, letreiro monumental, volumes escalonados — Art Déco de cinema, no sentido literal. A fachada não existe mais como era. Foi descaracterizada por reformas, como aconteceu com o Cine Capitólio, de 1934, desfigurado nos anos 1960.
Nenhum dos dois foi vítima de catástrofe. Os dois foram vítimas de decisões — a mesma sequência de decisões pequenas, tomadas uma a uma, que apagou boa parte do conjunto campinense: fechar uma janela, arrancar uma platibanda, cobrir a fachada com um painel maior que o do vizinho.

O painel voltou
O golpe mais recente é também o mais banal. A primeira etapa do projeto de revitalização, no início dos anos 2000, obrigou os lojistas a descobrir as fachadas — e a cidade viu, surpresa, o próprio centro histórico. Em 2004, a área déco central foi delimitada e protegida. Duas décadas depois, muitas dessas fachadas estão cobertas de novo, escondidas atrás de letreiros e painéis, ainda que haja normas do IPHAEP que vedem esse tipo de intervenção em imóvel protegido.
A norma existe. O que falta é o resto: fiscalização, contrapartida para o comerciante, projeto cromático, uso do centro fora do horário comercial. Sem isso, a preservação vira uma exigência sem oferta — e perde, porque o painel dá dinheiro hoje e a fachada só dá dinheiro depois.
O que Miami fez
A história de Miami Beach é conhecida entre os preservacionistas e vale como espelho. No início dos anos 1970, quando os tratores chegavam para demolir o conjunto de South Beach, Barbara Capitman — mulher da sociedade local — se acorrentava literalmente aos prédios. Formava-se o tumulto, chegava a polícia e, atrás dela, a imprensa. A cada rodada, mais gente aderia à causa.
Em 1976, Capitman fundou a Miami Design Preservation League, a primeira Art Déco Society do mundo. O conjunto foi salvo. Hoje, quem sai do aeroporto encontra a placa: Art Deco District. O relato é de Marcio Roiter, fundador e presidente do Instituto Art Déco Brasil, que costuma resumir a lição em duas palavras: perseverança e abnegação — e completa, dirigindo-se ao país e à cidade: “Aprende, Brasil. Aprende, Campina Grande.”

Miami não é caso isolado. Goiânia organizou o próprio acervo déco; Niterói restaurou seu Mercado Municipal; o Rio de Janeiro mantém um circuito reconhecido; Lisboa incorporou o estilo ao roteiro. Em todos esses lugares, a arquitetura dos anos 1930 e 1940 deixou de ser um problema de manutenção e virou um ativo econômico.
A conta que ninguém fez
É aqui que o argumento sai da cultura e entra na economia. Campina Grande tem um produto turístico forte e um problema estrutural: o Maior São João do Mundo é extraordinário e é sazonal. Trinta dias de alta temporada não sustentam uma indústria de hospitalidade o ano inteiro.
Um centro histórico restaurado, com identidade visual própria e rara no continente, é o oposto disso: funciona em fevereiro, em agosto e em novembro. Não compete com o São João — completa. E depende menos de grandes obras do que de coordenação: poder público, Associação Comercial, Federação das Indústrias, universidades e os próprios lojistas, que são, hoje, tanto o problema quanto a chave da solução.

O que falta não é acervo
Campina Grande não precisa construir nada para ter um centro histórico: ele já está construído. O que falta é o que Lia Mônica Rossi não conseguiu ver acontecer — a continuidade. O projeto está pronto e engavetado; a legislação de proteção existe e é descumprida; o conjunto é reconhecido por pesquisadores e ignorado pela cidade.
Falta, sobretudo, o sentimento de pertencimento que Minas Gerais tem em relação ao seu barroco: a convicção coletiva de que aquilo ali é nosso, vale dinheiro e não se derruba. Enquanto isso não se forma, o acervo segue no lugar onde esteve nas últimas oito décadas — à vista de todos, e invisível.
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