Desde 1º de maio de 2026, o Hospital Materno Infantil Clipsi, em Campina Grande, passou à gestão do Governo da Paraíba, pela Secretaria de Estado da Saúde, e opera exclusivamente pelo SUS. A troca de comando mudou três coisas de uma vez: a gestão, o acesso e a conta de uma das referências materno-infantis da cidade. Veja o que muda para quem precisa do serviço.
Antes sob outra gestão e em dificuldade financeira, o hospital deixou de depender de convênios. A responsabilidade por pessoal, insumos e leitos passou ao Estado, e o atendimento é gratuito, sem cobrança ao paciente. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a estadualização buscou fechar o vazio de atenção materno-infantil em Campina Grande e na região. No SUS, o financiamento é tripartite: União, estado e município dividem a conta, conforme o Ministério da Saúde, e o serviço segue os princípios de universalidade, integralidade e gratuidade, sem exigência de plano de saúde. Ao assumir a unidade, o Estado passou a responder pela folha de pessoal, pela compra de insumos e pela manutenção dos leitos, encargos antes atrelados aos convênios que estavam na raiz da crise financeira.
Fonte: Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, 2026
Como funciona o acesso
O acesso também mudou. O Clipsi funciona em porta aberta: o paciente de baixo risco procura o hospital diretamente, por demanda espontânea, sem precisar de encaminhamento. Casos de alto risco são referenciados a outra unidade pela regulação estadual, porque o Clipsi é voltado ao perfil de menor complexidade. Pela lógica do SUS, o paciente de menor gravidade é acolhido por livre procura, enquanto os quadros que exigem maior densidade tecnológica são transferidos a serviços de referência pelas centrais de regulação, que localizam o leito adequado. É esse encaminhamento que evita que uma gestação de alto risco chegue a uma unidade sem retaguarda. O funcionamento é 24 horas, na Rua 13 de Maio, 366, no centro da cidade. A unidade recebe gestantes de baixo risco, mulheres em trabalho de parto, puérperas, recém-nascidos e crianças de até 16 anos e 11 meses, o que cobre desde o pré-natal de menor complexidade até o atendimento pediátrico de adolescentes. Ao concentrar maternidade e pediatria no mesmo endereço, o Clipsi passa a funcionar como referência regional, e não apenas municipal. Na capacidade, a Secretaria informa 113 leitos: obstetrícia, pediatria, pré-parto, cuidado canguru e terapia intensiva neonatal.
- Obstetrícia 52 leitos
- Pediatria 38 leitos
- Pré-parto 10 leitos
- UTI Neonatal 10 leitos
- Canguru 3 leitos
O caminho até a estadualização
A troca de gestão não nasceu de um anúncio isolado. Em 20 de março de 2026, o Ministério Público da Paraíba (MPPB) mediou uma reunião entre a Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), a Secretaria de Saúde de Campina Grande e o Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB) para tratar da crise financeira da unidade: sem caixa para fechar as escalas médicas a partir de abril, o hospital corria risco de interdição ética, procedimento pelo qual o CRM-PB pode proibir o atendimento em um serviço sem condições mínimas de segurança, no exercício de sua fiscalização sobre o funcionamento das unidades de saúde. Naquele momento, segundo o MPPB, o Clipsi operava com 4 leitos de UTI neonatal e 6 leitos de UTI pediátrica, uma fração da capacidade que hoje sustenta a maternidade da Rainha da Borborema, apelido histórico de Campina Grande.
Em 8 de abril, a SES-PB apresentou ao Ministério Público o plano de trabalho do termo de ajustamento de conduta que resultaria na estadualização. O documento previa que o Estado passaria a usar a totalidade da estrutura do hospital, de 248 leitos, entre leitos obstétricos, de UTI neonatal e pediátrica e um leito de UTI adulta reservado ao atendimento materno. É essa capacidade instalada, e não o número de leitos hoje efetivamente em operação, que aparece nos registros do processo de mediação. Segundo o Governo da Paraíba, sob o governador Lucas Ribeiro, a ação buscou assegurar que o hospital seguisse atendendo a população de Campina Grande e da região.
- 20/03/2026
Mediação do MPPB
SES-PB, Prefeitura de Campina Grande e CRM-PB discutem risco de interdição ética por falta de recursos para as escalas médicas.
- 08/04/2026
Plano de trabalho apresentado
SES-PB leva ao Ministério Público o plano para assumir a totalidade da estrutura do Clipsi, de 248 leitos.
- 01/05/2026
Estadualização em vigor
Governo da Paraíba assume a gestão da unidade, que passa a operar 100% pelo SUS com 113 leitos informados em funcionamento.
Entre o plano que previa o uso de toda a estrutura e os leitos hoje em operação há uma diferença de mais de cem leitos. A Secretaria de Estado da Saúde não detalhou publicamente, até a publicação desta reportagem, se a diferença representa leitos ainda em processo de habilitação, ala fechada por reforma ou capacidade reservada para expansão futura: uma informação que a fonte oficial não divulgou.
Estrutura de leitos
A distribuição diz o perfil da unidade. Os 52 leitos de obstetrícia são a maior fatia; os 10 de UTI neonatal respondem pela linha mais delicada, a do recém-nascido prematuro ou de risco. A pediatria tem 38 leitos, e os três leitos canguru se destinam ao método que mantém o bebê de baixo peso em contato pele a pele com a mãe, para ganho de temperatura e vínculo.

A unidade dispõe de 10 leitos de UTI Neonatal. Reprodução / CRM-PB
O método canguru é uma política nacional. Segundo o Ministério da Saúde, a atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso propõe o contato pele a pele entre o bebê prematuro e a mãe ou o pai, de forma contínua e gradual, para estabilizar a temperatura, favorecer o ganho de peso e fortalecer o vínculo. Funciona como etapa intermediária entre a UTI neonatal e a alta. A terapia intensiva neonatal, por sua vez, concentra os recém-nascidos que dependem de suporte respiratório e monitoramento permanente, o ponto mais crítico da linha de cuidado que a unidade reúne no mesmo endereço.
Atendimentos nos primeiros dias
Nos primeiros 15 dias, entre 1º e 15 de maio, o hospital registrou 1.016 atendimentos, a maioria em pediatria. Foram 937 registros em pediatria e 79 em obstetrícia no período, uma proporção que revela o peso da demanda infantil logo na largada da nova gestão. Para a Secretaria de Estado da Saúde, o volume indica a procura represada por atenção materno-infantil na cidade e no entorno, antes dispersa por unidades sem retaguarda para o perfil materno-infantil. O predomínio da pediatria conversa com o reforço feito na ala infantil da rede e ajuda a explicar a decisão de ampliar os leitos pediátricos e de criar um pronto atendimento infantil em paralelo, para que a maternidade não absorva sozinha toda a procura. É um desenho que separa o fluxo: o caso de menor gravidade é acolhido em um ponto de pronto atendimento, e a internação fica reservada a quem de fato precisa de um leito hospitalar de maior complexidade.
A rede pública de saúde em torno também foi reforçada. A Prefeitura de Campina Grande abriu 19 leitos pediátricos na Clipsi e criou pronto atendimento infantil no Hospital Dr. Edgley, que passa a receber os casos de menor gravidade e a aliviar a procura por internação.

Atendimento infantil na rede publica de Campina Grande. Divulgação / Prefeitura de Campina Grande
No pronto atendimento infantil instalado no Hospital Dr. Edgley, o funcionamento informado pela Prefeitura é de segunda a quinta-feira, no período da tarde, voltado aos casos de menor gravidade. A distribuição da demanda pediátrica por mais de um ponto da rede ganha peso nos meses de maior circulação de doenças sazonais, quando a busca por atendimento infantil costuma crescer e pressiona os serviços de internação.
Para quem precisa do serviço: o atendimento é gratuito e exclusivo pelo SUS, por demanda espontânea nos casos de baixo risco. Não há agendamento nem necessidade de encaminhamento para o baixo risco. Levar o cartão do SUS e um documento com foto agiliza o acolhimento, já que o cadastro no sistema é o que vincula o paciente ao histórico de atendimentos da rede pública. O endereço é a Rua 13 de Maio, 366, no centro de Campina Grande, ponto de fácil acesso para quem vem da cidade e dos municípios vizinhos atendidos pela regulação estadual.
VerificadoChecado com a Prefeitura, o Governo da Paraíba e o Ministério Público da Paraíba.
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